Philip Glass queria ser um cientista. Em vez disso, tornou-se um dos músicos mais importantes da história da música contemporânea. O seu gosto pela ciência e pelo método acabaram por influenciar todo o seu trabalho, e nós como espectadores, podemos verificar uma semelhança entre o seu método musical e as nossas próprias vidas .

A Sinfonia nº 3 para 19 cordas e orquestra foi feita especialmente para a Stuttgart Chamber Orchestra, tendo sido estreada dia 5 de Fevereiro de 1995. Este é um exemplo significativo de música minimalista, onde podemos experienciar a singularidade do tempo e do espaço .

Dennis Russell Davies, director musical da Stuttgart Chamber Orchestra, pediu-lhe para realizar música especificamente concebida para os 19 intérpretes musicais . Como tal, Cada músico é tratado como um solista, tal como se nos estivéssemos a referir a uma experiência química, onde uma ligeira alteração pode dar acesso a um resultado completamente distinto.

Composta para ser interpretada por 19 instrumentos de cordas, Philip Glass referiu que o seu trabalho encaixa naturalmente numa opção musical de quatro tempos, o que nos remete mais uma vez para a necessidade de afirmação da música como modo de intensificação da atenção ao real, àquilo que se afigura natural na corrente da vida . O autor diz também que este trabalho se assemelha a uma verdadeira sinfonia, pela sua forma, na qual o terceiro movimento alberga todos os 19 intérpretes musicais e o ultimo movimento retorna ao tema de fecho do segundo movimento. A sua obra tem um percurso semelhante ao fluxo da vida humana, por vezes irregular e repetitivo, exposto às condições do passado e influenciado por cada nota que este contém, de modo a criar um futuro condicionado por toda a anterior vivência.

Uma peça musical para cordas tem o seu próprio ritmo e progressão musical, tal como a dança, cuja materialidade se altera de várias formas. Talvez seja por isso que esta peça se uniu que nem uma luva ao último acto de CIVIL warS: a tree is best measured when it is down , encenado por Robert Wilson, já com 20 anos de existência. A música foi inserida no intuito de criar passagens entre os variados movimentos, para que o famoso fluxo temporal não fosse interrompido (algo que a dança por si só não conseguiria obter). Dentro dos próprios interlúdios da peça, podemos ouvir outras referências do trabalho de Philip Glass, facilitando a todos nós, espectadores, a percepção de que é possível ligar uma acção através de outros eventos ocorridos de forma separada no tempo. Esses mesmos eventos mudam de espaço e intensificam o seu significado, visto que o nosso eu se altera progressivamente. Aquilo que ouvimos há um ano poderá nutrir outro efeito se for reposto 20 anos depois, com outra experiência sedimentada nas nossas vidas.

A música pode e deve ser encarada como um conjunto de experiências, problemas e soluções, tal como uma investigação científica. Estas experiências formam um conceito de “antes” e “depois”, em que o depois é referente ao culminar de toda a experiência científica, algo que um cientista procura incessantemente toda a sua vida. Na música, o contraste dessas experiências torna-se muito mais explícito, através da quietude dos tempos ou a sua perda total de balanço, como algo essencial no processo criativo.