Hoje em dia com o multimédia conseguimos ter uma noção mais ampla do quanto as artes e as tecnologias se fundem e se entrelaçam entre si.  Podemos reparar o quanto a arte esteve dependente da tecnologia e vice-versa. O título do artigo já sugere um reverso da medalha no campo artístico que vou tentar expor com este texto.

Começando então com um paradoxo, a questão que surge é a seguinte: Como pode constar um desejo pictural dentro da fotografia? Não será o contrário? Com efeito, antes de haver fotografia existiu sempre um desejo fotográfico na pintura. Podemos ver que celebres pintores como Caravaggio ou Vermeer tentaram inscrever nas suas pinturas o real. Esse desejo de captação do real só se concretizou quando finalmente se inventou a fotografia no séc. XIX, e a partir desse objetivo alcançado a pintura começou a ganhar outras formas. O que é próprio do sujeito, ou seja, a sua expressão pessoal começou a ser valorizado e podemos rever isso em pinturas que se incluem em movimentos como o impressionismo ou o cubismo, onde o grau de abstração cresce.

Hoje, o que aconteceu com a pintura também ocorre num sentido inverso com a fotografia. A fonte de inspiração de muitos artistas fotógrafos sempre foi a pintura. Em termos de enquadramento podemos ver semelhanças entre muitas pinturas e fotografias. Para dar um exemplo sugiro repararem nas semelhanças entre a fotografia de Jeff Wall “Picture for Women” (1979) e o famoso quadro de Édouard Manet “Un Bar aux Folies-Bergère (1882). Além disso, cada vez mais artistas se tem preocupado em alterar a inscrição do real na fotografia. Podemos reparar nisso quando falamos de programas como Photoshop, onde através de algoritmos já pré-programados podemos com um simples clique alterar uma imagem fotográfica. Mas sem chegar a esse ponto, o que quero destacar são obras fotográficas centradas na pintura como por exemplo a obra de Alexa Meade. Esta artista decidiu criar retratos pictóricos, não sobre telas mas sobre corpos humanos de tal forma que através da sua pintura e da captação dessa mesma através da fotografia, conseguiu transformar o 3D em retratos de 2D. Repare-se que é o processo ao contrário, através do conhecimento da matéria foi possível pensar de outra forma a pintura e a fotografia, criar novas formas de arte, tal como desafiar a nossa perceção e a nossa forma de pensar sobre ela.

Nestes exemplos concretos revemos perfeitamente uma pesquisa e uma reflexão sobre a pintura dentro da fotografia, mas estas obras não parecem ser apenas registos de pinturas. É um aspeto discutível, mas estas imagens ao mesmo tempo que captam o real também exploram a ficção e a subjetividade. A artista estuda texturas, cores, luz e sombras tal como um pintor as estudaria, mas decide incorporar a fotografia nesse processo. A fotografia depois de feita desafia qualquer olhar, pois se olharmos com atenção veremos que não se tratam de simples pinturas fotografadas mas de facto de captações de pinturas vivas. Este tipo de obras de arte multimédia contradizem a teoria de Friedrich Kittler, que separa as artes ditas por ele como tradicionais (como p.ex. a pintura), dos médias tecnológicos (p.ex. a fotografia), pois podemos ver claramente uma confusão entre inscrições simbólicas e inscrições do real.

Finalmente, estas obras mudam as representações e criam ilusões óticas diferentes, que não só contrariam a ideia de captação do real tanto desejado ao longo do tempo na pintura, tal como contrapõe a ideia de que a fotografia tem de ter forçosamente um aspeto realista.