O ser humano parece ter uma necessidade de tentar captar a realidade através de imagens. Fá-lo desde a pré história.

E desde então tem vindo a aperfeiçoar a sua técnica.

Até encontrar um método mais exacto que a pintura: a fotografia

Este desejo de representar a realidade, ou até mesmo de a imortalizar, não se verifica apenas na pintura ou na fotografia. Também desde tempos remotos que o teatro tem esse objectivo. E quando se arranja maneira de animar as imagens fixas, dando a ilusão de que se movem, dá-se origem a um outro tipo de teatro (ou talvez, um outro tipo de pintura, ou outro tipo de fotografia): o cinema.

Este novo media concretizou um desejo antigo do ser humano, o último passo em direção à representação perfeita da realidade: dar vida às imagens. Colocá-las em movimento. No entanto, deparámo-nos com um facto curioso: é que essas imagens, muitas vezes, não são feitas para captar o real, mas sim para criar fantasias. Jogos de fazer-de-conta. Histórias ficticias, criadas ao serviço do entretenimento e da satisfação estética, mais do que a imortalização do presente.

Assim, é interessante observar que a evolução de todas estas técnicas não ocorre apenas no sentido de fazer com que a arte se torne a representação do real mais fidedigna possível. Ironicamente, é quando mais nos aproximamos da possibilidade de representar o real com exactidão que nos afastamos dela. Falo, por exemplo, da fotografia, e dos movimentos de pintura abstrata ou estilizada que surgem posteriormente, como o surrealismo ou o cubismo. Ao contrário de grande parte da história da arte até então, a mimesis, a tentativa de imitação minunciosa da realidade, perde importância. Afinal, já não fazia tanto sentido fazê-lo, quando uma máquina fotográfica tinha essa capacidade. Ainda assim, é de referir que existem alguns artistas dos nossos dias que se dedicam à pintura hiperrealista, e conseguem atingir resultados nunca antes vistos, sem que possamos distinguir o que é uma pintura ou o que é uma fotografia. Mas a verdade é que a grande maioria dos artistas foi na direcção inversa. Basta olhar para grande parte da pintura moderna, ou para os inumeros programas de edição de fotografia para termos essa confirmação.

Talvez seja este o encanto da tecnologia: Quanto mais ela se desenvolve, mais caminhos temos a percorrer, mais opções criativas existem para explorar. Podiamo-nos limitar a imitar aquilo que vemos com os nossos olhos. Mas mais do que isso, a tecnologia dá-nos as ferramentas para concretizar aquilo que vemos com a nossa mente. A técnica anda de mãos dadas com a criatividade. É preciso tirarmos partido dela e dar forma às nossas ideias.

– Fernando Gil