Podemos dizer que a tecnologia tem “mil e uma” funções, ela está presente no nosso dia- a -dia a todo o instante: no despertador, no telemóvel, na televisão, nos carros, no computador, no elevador, na máquina fotográfica, na rádio, no cinema,…

O ritmo acelerado do mundo moderno resulta da uma necessidade de conforto, e os meios técnicos tornam a nossa vida mais prática. Dessa necessidade surge portanto a tecnologia e a invenção de máquinas inspiradas nos nossos sentidos e pensadas para nos substituir, ou pelo menos substituir algumas das nossas capacidades motoras, visuais, sonoras, etc. Esta invenção humana além do impacto sobre o meio ambiente, veio alterar o nosso comportamento e a nossa relação com o mundo, com a sociedade, com as artes e também com o tempo.

A tecnologia parece estar directamente ligada à economia e ao poder, o que levanta questões complexas de ética e exige um estudo aprofundado entre as relações deste três conceitos : tecnologia, economia e poder. Numa sociedade de consumo, em que num segundo acontecem mil coisas automática e simultaneamente, em que que as guerras já não se fazem com espadas mas com computadores e bombas, percebemos a origem duvidosa da tecnologia ligada a poderes opressores que procuraram por meio da tecnologia exercer um domínio o mais global possível do planeta. Deixando de parte este problema, o que aqui se pretende, é compreender qual a evolução da arte, nomeadamente da linguagem da pintura e a sua relação evolutiva com a fotografia. O processo é lento e dá origem uma uma nova noção de arte tecnológica (fotografia, cinema, televisão), distinta das artes tradicionais como a pintura.

Partindo da ideia que a tecnologia é criada pelo Ser Humano ele é portanto um modelo base da sensação de movimento e vida presente nos meios de transmissão de imagens. Se pensarmos que as imagens de uma película imitam o pestanejar das pálpebras, ou que as imagens televisivas correspondem à estrutura celular da retina (cone sensível à luz + cone sensível ao movimento), verificamos que estes dispositivos técnicos têm a sua origem na capacidade de visão. A arte encontra um artifício que lhe permite avançar no sentido de imitar a realidade num campo fortemente visual, mas que depressa se alarga aos outros sentidos, como a audição, criando uma relação interactiva entre a realidade do espectador e a realidade virtual. Se desconstruir-mos o funcionamento mecânico e físico destes novos aparelhos, eles resultam de uma aplicação da capacidade visual do ser humano na máquina, mas com uma diferença essencial, a retina recebe imagens e a televisão além de receber imagens, também as projecta. Até à invenção das máquinas fotográficas e de filmar, o Ser Humano não era capaz de projectar o que via (a não ser, talvez, de forma indirecta através da pintura). A câmara veio introduzir um “terceiro olho” aos nossos sentidos, capaz de mostrar uma realidade directamente mais próxima do olhar e mais espontânea. Através deste novos aparelhos de registo de imagem é possível direccionar o olhar do espectador condicionando a sua visão ao campo da objectiva, mas toda esta manipulação do olhar já existiam de certa forma na pintura.

Esta forma de olhar o mundo variável de sujeito para sujeito, está na origem da estética do objecto artístico mediado, é a partir do olhar do artista que a obra de arte ganha forma. O ponto de vista é o meio pelo qual a imagem se dá a conhecer, ela depende quase exclusivamente das opções do fotógrafo ou o operador de câmara para se definir enquanto conjunto estético. Já a pintura ele depende também do olhar claro, mas sobretudo da destreza das mãos, da imaginação, do treino e da dedicação. A destreza do pincel dá lugar à destreza do olhar, e o que fica da pintura na fotografia entre outras coisas, é um certo enquadramento da escolha do artista e as suas opções relativamente ao que quer representar. As horas, dias, meses, anos, que demoraria a fazer um quadro a óleo reduzem-se agora a um gesto que demora segundos, e… clic… temos uma fotografia. Se quisermos aprofundar as questões que relacionam a pintura com a fotografia elas são infinitas é todo um legado deixado pela pintura que está na origem da fotografia. Ora, ou a fotografia é a irmã mais nova da pintura, ou são primas muito próximas e que foram educadas juntas. Embora a fotografia não resulte das mãos do pintor como a pintura, ambas resultam do olhar da pessoa que está atrás da câmara ou da tela. Se pensarmos no cinema esta complexidade de olhares é ainda maior, porque resulta de um trabalho de equipa e não de um acto individual como acontece com pintura.

O olhar do realizador é dado ao operador de câmara que por sua vez filma a realidade com que se pretende atingir o espectador. E o cinema, aquele a quem já ninguém nega o estatuto de sétima arte, revela-se uma espécie de olhar colectivo da humanidade sobre ela mesma, mas um olhar facilmente manipulável.

A arte da representação de imagens remonta à pré história. A pintura, a escultura, a musica, as artes em geral são um legado precioso do nosso passado que nos ajudam a perceber e a traçar um caminho da evolução das representações gráficas da imagem que realizamos ao longo da História enquanto Seres Humanos e Artistas Gruta de Chauvet França

Gruta de Chauvet França

A pintura demonstrou ao longo da sua evolução, uma vontade de representar a realidade e de deixar inscrita a memória de determinado momento, paisagem ou personalidade, esta vontade culminará na invenção da máquina fotográfica e na capacidade que este aparelho tem de processar uma imagem bidimensional fiel à imagem que os nossos olhos captam da realidade. Suicidio de Ajax

O suicídio de Ajax, ânfora Ática EXERKIAS (550-530ac.) Museu de Boulogne-sur-Mer 558, é um exemplo da captação de um momento especifico quase que fotográfico por um artista da Grécia Antiga. Todo o enquadramento do momento específico da preparação da espada que capta o instante em que Ájax se debruçou para preparar a arma.

Após uma fase mais empírica da pintura com enquadramentos matematicamente incorrectos, na qual a narração é enquadrada num espaço em que os personagem são desproporcionais aos elementos de arquitectura.

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GIOTTO di Bondone (1266-1337)

Surge uma nova fase de imitação da realidade na sua aparência , textura e proporção.

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Willem Kalf (1619-1693)

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 Caravaggio (1571-1610)

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William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

Cada vez mais a pintura se aproxima da imagem fotográfica, chegando a atingir níveis de perfeição que quase não nos é possível distingui uma pintura de uma fotografia.pintura-realista1 Alyssa Monks

Alyssa Monks

A pintura exige sempre uma decisão do enquadramento por parte do pintor, e esta é a grande semelhança entre pintor e fotógrafo. A escolha de representação de momentos precisos, dos gestos, da luz, dos olhares, das posturas específicas e momentâneas por parte dos pintores são as características que aproximam a pintura da fotografia. A perspectiva linear da pintura dá lugar a uma fase técnico científica dos médias ópticos: cinema, televisão, computação gráfica, etc. No entanto essa vontade de representação do instante, do momento preciso, existia na pintura antes da invenção técnica cientifica que permite precisamente essa captação instantânea.

Friedrich Kittler, nasceu em 1943, foi assistente e professor académico ele vai direccionar os seus estudos sobre os efeitos, origens e funções da tecnologia média que começam então a emergir, ele faz a distinção entre as artes tradicionais e os meios tecnológicos. Assim, segundo este estudo, o sujeito dos média são os próprios média independentemente do sujeito humano, mas a sua acção tem um impacto enorme sobre os órgãos dos sentidos, sem esquecer os fins militares com que foram criados, chamando a atenção para a evolução simultânea e paralela entre os meios de comunicação, tecnológicos, acústicos e visuais. Segundo este autor a tecnologia estabelece uma relação de substituição com o corpo, através da utilização de imagens equivalentes fisiologicamente, como por exemplo a correspondência entre o movimento do pestanejar da pálpebras e as imagens alternadas da película. Outro aspecto desta teoria diz respeito ao facto de que as artes tradicionais produzem ilusões ou ficções, enquanto que os meios tecnológicos produzem simulações. Estas simulações vão vincular a imagem química ao estatuto de objecto, alterando simbolicamente seu valor. A manipulação do real gera imagens preparadas anteriormente, não espontâneas, manipuladas através da preparação dos espaço físico, ou da computação gráfica como explica a teoria de Jacques Lacan psicanalista francês que inspira Kittler nos seus estudos. A espectacularidade das imagens do cinema vem alterar todo um imaginário infantil criando novos códigos simbólicos próprios de uma estética ou de um estilo artístico.

Se encaramos o real como aquilo que não tem figura nem código o que os média vem fazer é atribuir um código à imagem real e torna-la visivel não enquanto realidade mas enquanto objecto. Este papel de codificação da imagem já estava presente na pintura mas de uma forma artesanal.  Mas a tecnologia vai mais longe: o real inscreve-se no físico, os média captam o que os nossos sistemas simbólicos não se apercebem como por exemplo, respiração e ruídos de fundo, uma vez que toda a matéria sonora se inscrevem nos dispositivo

Se pensarmos como surge e naquilo que se tornou hoje em dia a arte da representação gráfica de imagens, observamos que ela esteve sempre combinada com condições sociais e tecnológicas, e essa vontade de representação do real tem sido uma constante.

A capacidade que a máquina fotográfica tem de captação instantânea do real vai deixar aberto o espaço criativo de novas estéticas na pintura,transferir (3)

Victor Bregeda

mas a fotografia também se deixa influenciar pela pintura através de linguagens estéticas como por exemplo o pictoralismo.

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Gertrude Kasebier (1852-1934)

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Alice Boughton (1866-1943)

Fotografia e pintura são portanto formas artísticas de representação com diferenças essenciais na sua forma de concepção, mas que podem resultar em efeitos semelhante de enquadramento e representação de determinada realidade.

Cristina Lopes