Na Europa dos anos 1920, artistas e cineastas de vanguarda na busca pela essência do cinema, tencionavam tornar o cinema numa arte autónoma. Considerado por alguns vanguardistas uma arte plástica,  pensou-se na altura que o cinema só poderia ser transmitido através do olhar. As sinfonias visuais que então criaram, estimulavam bastante o órgão da visão e continuam a estimular o nosso olhar de espetadores curiosos.

As evoluções tecnológicas e artísticas geraram uma fusão entre várias artes ao qual damos hoje o nome de cinema. Esta arte híbrida permitiu aos artistas dos anos 1920 de poderem jogar e desenvolver uma estética particular, cujos elementos fundamentais foram o movimento e a luz, inspirando-se assim na dança e na pintura. A este cocktail acrescentou-se, ou melhor dizendo, artistas aperceberam-se da importância duma outra forma artística (que na verdade esteve sempre presente no cinema), a música. Eles constataram que ao juntar imagens em movimento e som de forma sincrónica tornavam a experiência estética muito mais intensa. Com efeito, ao criar uma sintonia entre meios, neste caso os sons e as imagens, cria-se também uma sintonia entre sentidos e é a partir disto que uma obra pode criar um efeito imersivo. Efeito que o famoso compositor alemão do século XIX,  Richard Wagner, tentou produzir no espetador através daquilo que ele denominou de Gesamtkunstwerk, ou seja, obra de arte total.

Diversificado e impuro por natureza, o cinema sonoro ao incorporar várias formas de expressões artísticas, e vários média automáticos que provocam estímulos multi-sensoriais demonstra assim, sendo uma arte multimédia.

“Vormittagsspuk” de 1928 é a obra cinematográfica feita pelo artista de vanguarda alemão Hans Richter, que escolhi como ilustração do artigo. A banda sonora da obra, composta por Paul Hindemith, é que teve um triste destino, pois foi banida e destruída pelo regime Nazi, mas outras foram criadas mais tarde para acompanhar o filme.