A arquitectura, tal como a pintura e a escultura, comunica com o indivíduo, preenche-lhe o espaço sensorial e fá-lo crescer como indivíduo pensante. Ela é capaz de massajar a nossa percepção estética mas também viver connosco, sendo algo quase tão imerso nas nossas vidas que não nos apercebemos de como ela se adaptou a nós humanos, controladores de um mercado onde tudo pende entre o consumismo desmesurado e a real necessidade. A arquitectura adapta-se, estandardiza-se, regulariza-se à medida que a comunidade se forma, maleável como a plasticina e frágil como um frasco de vidro.

É no decorrer do período neoclassicista (com o pressuposto formal de início no séc. XVIII) que a essência das ideias arquitecturais germina e se desenvolve. Esse crescimento é dotado de um ideal pensado por vários arquitectos, considerados utópicos/ visionários que se encarregaram de formar uma teoria da arquitectura que subsiste até aos dias de hoje.

Étienne-Louis Boullée, um dos arquitectos e pensadores desse período irá reflectir sobre o papel formativo da arquitectura, que nos remete para a pergunta: em que aspectos esta arte poderá influenciar a sociedade e os seus códigos de comportamento?

Aqui explicito o foco principal que me surgiu ao pensar nas palavras “consumo”, “necessidade” “arte ao serviço da comunidade”: não será a multimédia algo inteiramente aliada a toda este cocktail de sensações e necessidades despertadas? Creio que sim, na medida em que a multimédia se alia à arte e cria ferramentas de modificação da vida social e seus comportamentos. Resumindo a ideia, se queremos que determinado indivíduo se porte de determinada maneira, será o local a domar-lhe os passos, conforme a função que este tiver.

Arquitectura alia-se a multimédia na medida na medida em que ambos surgem com uma dimensão social, e não apenas numa perspectiva artística. Dou como exemplo um dos projectos fulcrais de Étiene-Louis Boullée que é tido como a versão plástica do Iluminismo- o Cenotáfio de Newton. Projetado em 1784, esta magistral obra tem a forma esférica, com 150m de diâmetro firmemente incrustada numa base rodeada de ciprestes, o símbolo natural da morte. A esfera albergaria por dentro o sarcófago de Isaac Newton, e em toda a sua volta teria cortes circulares de forma a que a luz pudesse incidir por dentro do edifício como se fossem estrelas. De noite, no centro do espaço, um mecanismo reproduzia o movimento do sistema solar através de arcos rotativos.

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Esta obra, celebra, para além de muitas outras coisas, o fim da ignorância e da superstição em volta da ciência e daquilo que nos rodeia, algo que a multimédia conseguiu obter apenas mais tarde através  de recursos para garantem a percepção e o acumular de conhecimento. Podemos dizer que este foi um dos  pontos de partida de uma comunicação efectiva e partilha de ideias a uma larga escala, dada através da glorificação de um dos maiores cientistas que o mundo já teve. A arquitectura é falante, tal como a multimédia é falante e permite falar a um ritmo em constante renovação.

(No vídeo anexado temos a produção digital idealizada daquilo que seria hoje o Cenotáfio de Étiene-Louis Boullée, onde mais uma vez temos acesso à aliança entre a arquitetura e a multimédia e como estes podem vivem em simbiose)

Margarida Rigueira Ataíde Almeida