Oskar Fischinger foi um pioneiro do seu tempo, um dos primeiros a casar arte e multimédia. A harmonia simbiótica com que aliou o som à imagem na década de trinta originou provavelmente as primeiras experiências estéticas de imersividade assinalável, alcançadas no campo do abstracionismo e da subjectividade.

Arrisco afirmar que Oskar Fischinger, para além da influência que teve no cinema, plantou a semente daquilo que são hoje os grandes eventos musicais, ainda que nestes a simbiose funcione de forma oposta na grande maioria das vezes. Ao contrário dos filmes experimentais de Fischinger onde o som maximiza a capacidade das imagens em imergirem o espectador, nos concertos que caracterizam o início de carreira dos Pink Floyd(banda pioneira na inclusão destes elementos em meados da década de 60), os jogos de luzes, que implicavam cor, ritmo e movimento, potenciam a imersividade do espectador no psicadelismo inerente às composições musicais da banda, liderada na altura por Syd Barrett – curiosamente, “psicadélico”, foi o primeiro adjectivo que me ocorreu quando estive pela primeira vez em contacto com os trabalhos de Fischinger, e é algo particularmente fácil de observar em Kreise (Círculos, 1933).

Tal como as composições musicais dos autores de The Darkside of The Moon, também os espectáculos da banda evoluíram, por sua vez na relação com a multimédia, sendo este facto justamente destacável devido à influência que isso possa ter naturalmente tido noutras bandas e/ou artistas musicais (sublinhando sempre que quem plantou essa semente foi Fischinger). Hoje temos casos como o de Amon Tobin (produtor de música electrónica com raízes de formação musical no Jazz) que implementou no seu live act um espetáculo massivo de video mapping, criando na minha opinião uma sinestesia entre os elementos audíveis e os visuais ao invés de utilizar um para potenciar a imersão no outro.  

O que começou por ser declaradamente uma experiência cinematográfica que estudava dinâmicas entre formas, cor, ritmo e som acabou por ter uma influência basilar nos espectáculos musicais, algo que na minha opinião é um dos argumentos válidos para justificar a transversalidade do impacto imersivo causado pela simbiose entre elementos visuais e sonoros, seja qual for o contexto e o propósito a que se destine.

Reinaldo Gonçalves

(Acima dos restastes vídeos está um link discreto para o trabalho “Kreise” de Oskar Fischinger)

Oskar Fischinger – Kreise