Multimédia e performance não são dois conceitos entre os quais que se possa imediatamente encontrar uma relação, principalmente se atentarmos às suas mais comuns definições. Por multimédia entende-se, de forma geral, a combinação de meios, ou de tipos de média para ser mais preciso, associada a tecnologias com suporte digital. Por outro lado, o termo performance define uma apresentação/execução física, ou, no seu sentido etimológico, na junção do termo Per (movimento através de, proximidade, intensidade, totalidade), com o termo Forma (limites exteriores da matéria de que é feito um corpo), ambos provenientes do Latim.

Multimédia, devido à sua estreita ligação com a tecnologia, transmite uma ideia de durabilidade, preservação e de reprodutibilidade. Por sua vez, a performance prima pelo seu lado efémero, pelo hic et nunc (aqui e agora, literalmente traduzido do Latim) que lhe é característico.

Então, de que relação estava a falar quando escrevi o título deste artigo?

Apesar de serem conceitos com definições e características praticamente opostas e de operarem naturalmente sozinhos, sem que haja uma dependência obrigatória de qualquer um deles em relação ao outro, estas duas formas podem perfeitamente trabalhar em conjunto, conseguindo-se criar uma união do melhor de dois mundos e fazendo com que o espectador seja quem sai mais beneficiado desta relação (porque, apesar de tudo, eu não me referi a “conceitos opostos”, mas sim a “conceitos com definições e características praticamente opostas”, sendo que o facto de ambos procurarem “atingir” um ou vários espectadores é um dos seus pontos em comum).

Que a performance se pode socorrer da multimédia para se tornar mais abrangente e até para criar novas formas de arte, como é o caso da video performance ou até mesmo da video arte, como já foi referido noutros artigos destes mesmo blog, é algo que não nos é novo. Não só a multimédia serve para complementar os espectáculos e performances, como serve ainda para combater as lacunas óbvias da efemeridade, tornando possível registar e reproduzir esses mesmos acontecimentos, ainda que de forma muita limitada, pois todas as sensações e interactividade ocorridas entre artista/performer e espectador ficam no espaço e tempo do happening.

Mas será que esta situação conhece um “vice-versa”? Poderá a performance ser assim tão importante para a multimédia?

Neste caso, a meu ver, esta situação não é tão implícita quanto a anterior, embora não tenha a mínima dúvida que existe e é importante. Atenção que quando falo de uma relação entre estes dois termos, e como penso que já esclareci, não falo de uma relação crónica, em que todos os tipos e produtos de multimédia se ligam a todos os tipos e produtos de performance. Claro que é possível produzir multimédia sem recorrer à performance, como durante muitos anos foi possível existir performance sem recurso à multimédia.

Mas voltando à última questão, até que ponto pode a performance complementar a experiência multimédia? Esta consegue dar um maior realismo e humanização à peça multimédia, segundo a minha óptica. Não só a performance em si, mas principalmente as características que ela possui e que eu já referi anteriormente. O facto de um video, enquanto exemplo de multimédia, resultar de um acontecimento real, de um determinado happenning, dá-lhe outra credibilidade, faz-nos olhar para ele de outra forma, deixamos de apreciar apenas o resultado final que nos é apresentado e passamos a “analisar” as sensações e todos os restantes aspectos efémeros e transitórios que ficaram no hit et nunc. Aqui o verbo analisar aparece entre aspas pelo simples facto de não ser possível analisar-se de forma correcta sensações que não sentimos, ou aspectos que não conhecemos. Por isso, mais do que analisar, esta forma de criar multimédia leva-nos a imaginar.

Como intuito de melhor explicar a minha ideia, deixo aqui quatro exemplos de multimédia imersiva, sendo quatro vídeos elaborados para o mesmo projecto, denominado “Great Films Fill Rooms”, levado a cabo pela Sony. O último é uma explicação de como chegaram ao resultado dos três primeiros, um making of. Os making of são bastante populares neste tipo de projectos, e permitem-nos atingir respostas para as perguntas criadas pela nossa imaginação durante a visualização das obras em questão. Mas melhor que explicar, é demonstrar.

Por isso, sugiro que apaguem as luzes e assistam aos vídeos, de certo que as dúvidas e perguntas depressa aparecerão!