A arte e a expressão artística acompanham o Ser Humano desde há muito, podemos afirmar que o ser vem antes da arte ou seja, a arte é uma criação do Ser. Desta forma a evolução de qualquer conceito ou objecto de arte está directamente dependente do Ser e de todas as evoluções na vida da humanidade.

A revolução industrial e tecnológica, a introdução do computador e dos meios digitais afectaram de maneira directa a construção e a evolução da expressão artística, ao mesmo tempo que deram origem a novas formas de arte, como por exemplo: o cinema, a fotografia, a vídeo arte, as artes digitais, as artes numéricas… Estas novas formas de materialização da arte têm múltiplas funções, aquilo a que chamamos hoje de arte multimédia é a junção de diferentes equipamentos que permitem a mediação e a criação artística. Assim, geram-se novas possibilidades:manipular, armazenar, ampliar, diminuir, gravar, iluminar, copiar, colorir…este conjunto de novas possibilidades vai interferir tanto na vida como na arte. E por fim a capacidade da qual a expressão artística se serve constantemente e que encontra o seu expoente na arte 3D, ao lançar o espectador num universo virtual que antes ele não podia manipular mas que já pode ser interactivo.

Se pegar-mos no exemplo do teatro, é frequente a utilização de vídeos para definir cenários, ou mesas de som e colunas para criar o ambiente sonoro desejado. A introdução do som através de meio tecnológicos e digitais veio alterar não só as narrativas sonoras mas também o trabalho de actor, na medida em que a introdução do microfone veio criar uma relação diferente com a voz e a emoção, ele já não é obrigado a projectar a voz, os microfone fazem agora parte desse trabalho.

Da mesma forma o cinema alterou a sua construção à medida que se foram alterando as câmaras de filmar e todo o material tecnológico utilizado numa filmagem. Consequentemente narrativas novas surgem da junção de novos equipamentos, mais uma vez coloca-se a questão do actor que já não interage com outros actores mas sim com uma realidade virtual, ou que pode até mesmo substituir-se o actor humano por seres mediados como acontece na banda desenhada, ou uma interacção entre ambos.

As novas tecnologias vieram contribuir de certa forma para a construção de personagens imaginários que habitam o nosso inconsciente, seres que podem cair de andares, voar, uma espécie de avatares do nosso desejo de sobre-humanidade. Desde a invenção do cinema o nosso inconsciente é habitado por seres desse universo cinematográfico. Personagens como Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Loyd viveram numa época em que a tecnologia ainda era primitiva, mas com a sua criatividade conseguiram dar uma nova dimensão à ideia de herói sujeito a situações difíceis das quais se deve desembaraçar. É nesta ideia do difícil, do objectivo, do impossível e da ilusão que a tecnologia vai dar o seu máximo de expressão no sentido das imagens em movimento ao qual se junta a sincronia com o som. Os gags típicos do cinema mudo deixam de fazer sentido no cinema sonoro, as novas tecnologias vieram trazer novas necessidades e prioridades ao trabalho de actor que já não conta apenas com a expressão do corpo e do gesto, mas também com a voz

Quando som e imagens captam dois sentidos ao mesmo tempo (visão e adição) num único sentido estético-narrativo dá-se uma sincronia, que para além de captar a atenção do espectador direciona-lo numa interpretação. A não sincronia cria múltiplas narrativas divididas em sub-categorias; narrativas visuais e narrativas sonoras.

A introdução da cor e do som no cinema foi desde logo um grande salto que veio alterar toda a linguagem cinematográfica, o som que dá origem a situações cómicas que se geram à volta da difícil tarefa de sincronizar o som com a imagem. A não sincronia pode ser utilizada como objectivo expressivo que cria um efeito cómico, ou de suspense e estranheza… A fotografia por sua vez posicionando-se ao lado da pintura afastou-a de certa forma do objectivo de retratar fielmente a realidade esse é agora o trabalho da maquina fotográfica, dando origem talvez a novas formas mais abstractas de pintar e instalações.

O cinema, a televisão, a câmara de filmar, o computador, a maquina fotográfica, são alguns do média mais utilizados hoje em dia. Randall Paker e Ken Jordon ao estudarem o fenómeno multimédia procuram definir este conceito como a reunião das seguintes características: Integração; Interactividade; Hipermédia, Imersão e Narratividade. A Integração é como tudo começa ao combinar formas artísticas com tecnologia criando uma forma híbrida de expressão; a Interactividade segundo este estudo diz respeito à habilidade de manipular e usar o média para comunicar com terceiros; Hipermédia significa neste caso a capacidade de separar elementos de media de outros elementos no sentido de uma associação pessoal; quanto à Imersão ela diz respeito ao experiência de entrar numa simulação ou sugestão de um ambiente tridimensional. Hoje em dia os meios digitais emergem a toda a hora, logo qualquer definição é susceptível de ser substituída amanha de acordo com as evoluções tecnológicas. O problema é que os interesses da comunidade artística não são os mesmos das multinacionais, as industrias centralizadas de comunicação do séc XIX como o telégrafo, a fotografia e o telefone exigem uma esforço de estandardizarão global de linguagens e formas de comunicação independente de cada meio, e só acessível aquele que conhecem essa linguagem como por exemplo o código morse no caso do telégrafo.

Os meios tecnológicos na expressão artística vão de certa forma ao encontro da ideia de “obra arte total” de Wagner, uma vez que vai permitir a integração de diferentes artes na mesma obra e é neste sentido que os novos média vêem possibilitar o dialogo e comunicação entre realidades artísticas diferentes.

Ao mesmo tempo os meios tecnológicos e multimédia são meios de reprodução auxiliares do objecto artísticos, eles tornaram-se ele próprios objectos artísticos, formas de arte distintas e autónomas ligadas apenas por laços de descendência das outras artes.

A arte do séc XXI surge aliada a uma evolução tecnológica que tende a continuar, esta evolução veio criar novas formas de expressão e comunicação da arte. Criando ao mesmo tempo uma nova relação do espectador com a arte, hoje em dia quase basta ter um computador ligado à Internet para ter acesso virtual a tudo o que se faz artisticamente no mundo… a questão é qual a diferença entre viver a realidade e assistir a um filme no cinema, a uma peça no teatro, ou ver um quadro num museu? Os meios tecnológicos tem portanto, uma dupla dimensão: a primeira de divulgador de outras formas de arte, e a segunda como meio de expressão artística (arte medial).

Cristina Lopes