Um pouco em confronto com o que se tem dito nas últimas aulas, considero o silêncio tão ou mais imersivo do que o som, aliás, vou mais longe e considero o silêncio uma parte essencial do saber ser, que se tem perdido em detrimento da evolução do Homem. É ponto assente que, actualmente, apenas a literatura nos proporciona esse elemento em pleno, como nos diz Manuel António Pina, jornalista e escritor português já falecido, “Só nos livros são possíveis ainda a noite e a solidão, em tempos de holofotes por todos os lados. E quanto os homens precisam de solidão, de se escutar a si mesmos na numerosa voz dos livros! E, em tempos como estes, barulhentos e estridentes, de silêncio!”.

Para além de tudo isto, temos a famosa obra 4’33” de John Cage: durante quatro minutos e trinta e três segundos, o público é presenteado com um silêncio puro, e não será este silêncio imensamente imersivo? Na minha opinião é, pela forma como quem o “ouve” o pode modelar de forma livre, ora com a inquietude normal provocada pela impaciência do aparente não-acontecimento, ora por coisas ainda mais simples, como a tosse ou um espirro. Apesar de elementos básicos, são a prova de que o silêncio é intrinsecamente nosso, e que precisamos dele na medida em que o podemos modelar de uma forma única.

Numa analogia a esta obra de Cage, surge Zen for film do vídeo artista Nam June Paik, um loop aparentemente sem fim: uma tela branca e algumas perturbações ocasionalmente, onde o autor utiliza o silêncio como um “não-som” criando basicamente um anti-filme onde alerta para a importância da busca de imagens do próprio ser, do eu, em detrimento do desprendimento das imagens externas que vêm da televisão, em grande maioria.

Considero assim, que tal como o som, o silêncio contribui de forma essencial para a identidade, a coerência e a unidade da imagem.

John Cage 4’33”

Nam June Paik Zen for Film