É no inicio dos anos 70 que surge uma nova forma de videoarte: a videodança.  Inicialmente quando se tratava de vídeo na dança era apenas uma espécie de registro que serviria de estudo, expansão e repetição da técnica para coreógrafos e bailarinos, pois em si, a coreografia apresentada estava ligada ao instante do movimento e com o auxilio do aparato técnico era possível ver com mais detalhes o desenvolvimento da coreografia, a movimentação muscular do bailarino e outros detalhes que visto no instante num teatro não se conseguiria captar.

Nos anos 70 Merce Cunningham começa a fazer outras experiências com vídeo e sua dança. Ele passou a se apropriar do média utilizado para compor o vídeo a partir de seus valores estéticos e poéticos. Não é mais um vídeo que registra a apresentação de uma coreografia, mas um vídeo que seria o olhar sobre a coreografia a partir de um mecanismo tecnológico e das afinidades estéticas do pesquisador.

No Brasil a bailarina Analívia Cordeiro foi a primeira a trabalhar a videodança como linguagem. Fazendo suas coreografias e experimentos durante muitos anos apenas para o vídeo. Hoje já existem festivais de videodança no Brasil, entre eles o mais antigo e conhecido que se chama Dança em Foco – Festival Internacional de Vídeo e Dança, que tem entre seus selecionadas para a edição de 2013 a videodança “Criatura”.

"Criatura"

“Criatura”

“Criatura” acontece no estado de Alagoas no Brasil e é um trabalho realizado com a presença de uma bailarina que por sua carreira está ligada aos palcos e ao jogo do instante do movimento, do aqui e agora, no entanto, seu propósito de construção não é para a repetição como nos palcos de teatro, mas para o próprio registro na câmera.  A dança nasce nesse caso para ser registrada e recriada com os olhares dos aparatos tecnológicos. Desse encontro nasce também a redescoberta do próprio olhar do diretor Nivaldo Vasconcelos e de Alice Jardim, pois assumem o desafio de fazer a câmera dançar com Carolina Brandão, e o desafio para esta de dançar para a câmera, porque como diz SPANGHERO (2003, P.38):

“(…) o que interessa primordialmente é que a câmera dance com o bailarino e que o bailarino se coloque no espaço e no tempo da câmera. No olhar da câmera. Quando a dança é captada pelo olho da imagem, ela ganha outra existência. Na realidade, este jogo adaptativo permite o florescimento de novas práticas para a dança e a modificação do corpo.”

Não é, portanto, o registro fílmico de uma bailarina que dança, mas uma nova existência, uma nova possibilidade que se deu no encontro do movimento da dança com o olhar da câmera. Já não é apenas dança, nem apenas cinema. Tornou-se videodança uma interação estética do encontro de ambas as artes.

O personagem principal do filme, a criatura, encontra-se na areia da praia, sob os raios do sol e de frente para o mar. A câmera vai captando seu olhar, suas mãos, partes do seu corpo e quando percebemos os movimentos antes contidos e querendo aos poucos se soltar, explodem em gestos ora violentos, ora com leveza, já não sabemos mais o que estar a dançar no meio das ondas, se é uma mulher, um homem, um bicho que tenta se salvar e acaba-se por responder que é uma criatura.

Segundo Carolina seu processo de criação se deu a partir de conversas com Alice Jardim e Nivaldo Vasconcelos que a ajudaram a construir o universo dessa mulher. A partir das conversas ela buscou inspiração em Anne Teresa De Keersmaeker e em uma de suas peças “Rosas Danst Rosas”, pois segundo Carolina em conversa por e-mail:

“Ela (Anne) traz o universo feminino nas minúcias do gesto. Na segunda parte busquei algo mais animalesco, a partir do meu histórico de movimento.”

Em conversa por e-mail com o diretor Nivaldo Vasconcelos ele relatou que sua inspiração inicial para a concepção da personagem “Criatura” foi a “monga” personagem de uma mulher que dentro de uma jaula sofria uma metamorfose diante do público e se transformava em gorila.

Nas entrelinhas estão presentes as inquietações do diretor com relação às amarras que levam ao conformismo e uma educação castradora. “Criatura” é, portanto, a liberação do lado animalesco do ser humano, o lado escondido e sufocado de sua realidade pelo contexto de opressão e castração continua.

“Criatura é o derretimento destas amarras e a liberação parcial desta fera interna que comunga com a natureza. É uma pulsão biológica sobrepujando aquilo que nos aprisiona”- declara Nivaldo Vasconcelos, reafirmando o processo de construção coletiva do personagem e a busca por uma linguagem que tivesse a luz como ponto fundamental para a metamorfose, pois segundo ele, durante a pesquisa decidiram por uma luz que começasse o vídeo de maneira solar dialogando essa luz com a quebra dos bloqueios como se os derretesse, culminando com uma iluminação com equilíbrio entre humano e ambiente.

O processo de inserção de uma trilha sonora no filme se deu durante o ano de 2012, período que dedicaram a montagem do filme e experimentos sonoros. Foi convidado o músico Barulhista que teve a liberdade de experienciar suas possibilidades de criação musical.

Fazer “Criatura” acontecer é um desafio que fortalece a produção cinematográfica contemporânea, por se falar de um filme feito em um estado brasileiro em que não há apoio digno governamental para a produção de filmes e segundo por ser uma videodança que une universos distintos em busca de experienciar possibilidades de criação com o encontro dos aparatos tecnológicos em uma arte que, digamos, era até meados da década de 60 exclusiva dos palcos.

Por Bruno Alves

Ficha Técnica:

Roteiro Coletivo

Direção: Nivaldo Vasconcelos

Direção de Fotografia: Alice Jardim

Coreografia: Carolina Brandão

Montagem: Alice Jardim e Nivaldo Vasconcelos

Trilha Sonora Original: Barulhista