Com uma sequência de números formulados por padrões geométricos que surgem ao centro do ecrã acima da expressão nature by numbers, Cristóbal Vila apresenta-nos um cálculo que veicula estes mesmos números dispostos ao centro para a parte inferior do ecrã. O cálculo dar-se-á através da equivalência entre as ações de igualdade e adição sendo, o último número do cálculo, somado ao seu resultado possibilitando um movimento progressivo que poderia perdurar infinitamente, mas que encerra-se no dígito (144).

Após o surgimento do número (55) no centro da tela, linhas oblíquas preenchem o plano de fundo que até então assumia tonalidades oscilantes entre o vermelho e o preto. Após o último número apresentado, novas linhas em um sentido oposto formam junto as anteriores uma grelha de pequenos quadrados organizados simetricamente. Agora o cálculo que em um primeiro momento foi desenvolvido numericamente na parte inferior do ecrã, apresenta-se representado com o preenchimento equivalente dos números em pequenos quadrados.

Em um movimento contínuo, uma linha dourada percorre a grelha assumindo proporções equivalentes a representação numérica de cada quadrado. A medida que afasta-se do dígito (1) ao dígito (144) a linha ganha proporções e assume um caráter helicoidal. Com o surgimento de outro plano e outra atmosfera representacional a linha multiplica-se e ganha dimensões apresentando novos elementos. Esta conjugação repete sempre o mesmo padrão da representação anterior só que com uma maior dimensão. Progressivamente estas linhas ganham corpo e assumem o formato de um caracol.

O caracol distancia-se do ponto de vista do espetador a medida que aproxima-se do plano de fundo mesclado entre azul e preto. Em um certo ponto o objeto começa a ser incorporado por formas geométricas, linhas e curvas seguidas de cálculos e graus. Sobre uma mesma grelha simétrica um ponteiro agora gira sob um eixo, apontando os graus assumidos pelos pequenos círculos que nascem do próprio eixo. O surgimento dos círculos vai aumentando conforme a aceleração do ponteiro. A partir de uma certa quantidade estes mesmos círculos começam a ganhar forma envoltos pelas pétalas de um girassol que esta em processo de constituição.

Após formado o centro fractal do girassol, um plano aproxima-se transpondo sua representação em um conjunto de círculos que novamente conjugam retas e ângulos formando figuras fechadas imperfeitas que gradualmente transformar-se-ão nas asas de uma cigarra. Como movimento final, um último plano aproxima-se dos olhos do animal e perde-se em meio a multiplicidade de formas que o compõem.

Nature by numbers é uma obra multimédia que transpõe através dos padrões complexos de elementos encontrados na natureza a beleza das suas formas geométricas abstratas representadas pelas operações matemáticas dos fractais. A imperfeição destas formas encontradas na natureza são sinónimos de imagens complexas que proporcionam um estado de arrebatamento ao espetador. Cristóbal Vila transpõem esta subtileza para a construção desses elementos através da lógica do cálculo. Em um processo gradual de construção a partir de um logaritmo ele propicia-nos uma visão embelezada da formulação dos elementos fractais encontrados na natureza.

Do ponto de vista da revelação dos meios nesta obra, é quase que como se Vila cria-se uma atmosfera visível para os processos de criação das imagens computacionais. O próprio título deste trabalho já pressupõe um paralelismo entre uma nova natureza, que é a natureza dos números.

Por fim trata-se de sublinhar uma citação de Carl Jung quando ele indaga se é possível em algum lugar não vermos a natureza, ou nos distanciarmos de tal forma da mesma a ponto de acreditarmos que somos desvinculados dela. Jung aponta que nós estamos na natureza e pensamos exatamente como ela. Sendo assim Cristóbal Vila apresenta-nos poeticamente a nova natureza ao qual estamos cada vez mais associados.

                                                                            Pablo Pinho