Sou da geração que não estranha o computador, o celular touch screen, os painéis interativos e os terminais de autoatendimento. Para mim o computador é algo natural, comum e, devo confessar, necessário. Percebo que a própria maneira de organizar-me está sob uma lógica computacional onde as tarefas diárias não possuem uma ordem exata para acontecer e o dia a dia nunca possui uma narrativa pré-definida.

Essa realidade não é exclusividade minha e é abordada no texto de Lev Manovich (2008) intitulado “Database as a Symbolic Form”. O autor explica que antes da era computacional a realidade da sociedade respeitava uma lógica de início, meio e fim. Além disso, as informações também eram organizadas de maneira mais orgânica e menos estrutural. No entanto, com a entrada do computador as estruturas mudaram e a maneira de organizar os dados passou a respeitar uma lógica de base e seus códigos.

Base de dados, para Manovich, é o respeitar de uma ordem algoritmica. Não necessariamente deve haver uma lista ordenada de informações e é essa a principal característica que diferencia a realidade pré da computacional. Além disso a era em que vivemos pressupõe normalmente uma interação com os objetos distinta da anterior. Por exemplo, interagimos com a tela do iPad ao invés da folha do jornal. E é a interação com a tela, que possui inúmeras possibilidades e facetas, que desconstrói a narrativa tão comum em tempos anteriores. Essa possibilidade de ir e vir, escolher o próprio trajeto de navegação é conceituada por Manovich como “narrativa interativa”. No jornal, leio as notícias escritas, vou e volto com as páginas mas não tenho como transcender aquela edição. No iPad, leio a notícia, reproduzo o vídeo da matéria, vejo a galeria de fotos, abro o link no texto que me remete ao site do órgão que estava sendo citado, vejo a página do jornal concorrente para ver como a mesma informação está sendo dita, vejo a galeira de fotos do outro site, dou play em outro vídeo…

O autor questiona-se, portanto, se essa realidade de base de dados é a nova realidade e condição humana. Creio que a discussão é curta e resulta rapidamente numa resposta: Sim, a lógica da base de dados, do software e da digitalização torna-se cada dia mais dominante e cada vez menos perceptível.

Texto escrito por Caroline Araujo Pinheiro da Costa em 28/05/13