Etiquetas

Quando olhamos para um caligrama, a primeira impressão é quase gestáltica – olhamos para o poema como um todo visual, uma silhueta, e só depois disso é que lemos o texto. Mesmo aí, a parte visual não pode ser ignorada, porque nos obriga a passear o olhar pelas linhas que forma, criando um novo tipo de leitura para além do “esquerda-direita-cima-baixo”. Temos assim uma leitura dinâmica do poema, conferindo movimento à sua recepção. Calligrammes – Poèmes de la paix et de la guerre foi editado em 1918, escrito por Guillaume Apollinaire. Nestes poemas visuais, o arranjo tipográfico é tão importante para a compreensão da ideia como o texto.
Aquando a sua escrita/desenho, Apollinaire já tinha reconhecido que eram um último esforço antes do fim da tipografia e do aparecimento dos novos meios revolucionários do fonógrafo e do cinematógrafo. Ora, esta noção da importância futura da imagem animada não pode ser inocente. Estes poemas têm uma possibilidade latente de movimento que começa a ser concretizada na sua leitura e parece ter sido concluída com o vídeo que apresentámos na aula. A animação, da autoria de Andrey Suzdalev, parece elevá-los ao seu expoente máximo de expressão.

Com as novas tecnologias e novas formas de animação, o autor do vídeo adicionou uma nova camada de significação aos caligramas. Vemos que interagem entre si e chegam a transformar-se uns nos outros. Acompanhados da leitura do texto, ganham mais vida e a relação entre o som dos poemas lidos e a imagem adquire uma nova dimensão. Esta animação permite que a leitura expressiva possa ser acompanhada de imagens que se movem, estreitando ainda mais a relação entre as componentes de uma língua – o seu sistema de escrita, a parte visual e os sons produzidos ao ler as palavras. Com o trabalho de Suzdalev, a tipografia, que Apollinaire considerava esgotada, é insuflada de nova vida exactamente com os meios que o artista considerava que a iam substituir, num compromisso entre o passado e o futuro dos meios de expressão visual.

Maria Leonor de Castro Nunes