Muitos foram os vídeo-artistas que confirmaram a natureza mutável que o vídeo tem. Nam June Paik foi um dos pioneiros electrónicos a ver o vídeo como um modelo de vida. Ele criou um novo género de exposição, com a sua primeira apresentação a solo a Março de 1963 “Exposition of Music – Electronic Television”, nas Galerias Parnass, em Wuppertal, Alemanha Ocidental, acabando por se tornar na sua maior exibição. Nessa exposição, Paik combinou doze aparelhos de televisão preparados com quatro pianos, gira-discos, gravadores, objectos mecânicos de som, e a cabeça de um boi recentemente morto pendurada à entrada do espaço por onde o público tinha de passar, como se se tratasse de uma zona de iniciação e purificação.

Embora naquela altura Paik não tivesse acesso a equipamentos de vídeo, ele conseguiu modificar televisões em segunda mão para distorcer os programas televisivos que iam passando, usando assim intervenções técnicas para alterar as imagens electrónicas. Por exemplo, um dos televisores entre os que se encontravam espalhados pela sala de exposição estava ligado a um gravador, através do qual a música era introduzida no cenário. Os impulsos electrónicos da gravação de som influenciavam a imagem electronicamente produzida no monitor, formando assim várias modificações diferentes, desde o “Zen for TV”, que representava um objecto de meditação, ao “Participation TV”, um objecto mais de interacção com o público.

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A exposição esteve patente apenas durante dez dias, e manteve-se aberta durante duas horas por dia. Como os canais de televisão alemães, contrariamente aos da televisão americana, apenas tinham emissões ao fim da tarde, as horas de abertura da galeria foram mudadas para esse mesmo horário.

O título que Paik escolheu para a obra indica a sua transição da música para a imagem electrónica. Os visitantes não só eram confrontados com a novidade da imagem electrónica nas televisões, mas também se encontravam integrados numa instalação dadaísta. Criou-se, assim, um ambiente de desorientação que antecipava o que estaria para vir nos anos sessenta – a invasão da programação televisiva por toda a parte. Desta forma, descobriu-se o aparelho da televisão como material artístico, que muitos outros artistas além de Nam June Paik vieram a explorar e a desenvolver sob formas de arte multimédia. A vídeo arte começava, assim, a dar passos largos e a ocupar um grande espaço no caminho das obras de arte.

Andreia Filipa Travassos Loureiro