Para imaginarmos é necessário, antes de tudo, um pressuposto: o tempo.

Segundo Calvero o tempo é um grande autor. Vou emitir a hipótese de que ele é diferente no texto, na fotografia, no cinema e no teatro. Essa hipótese tem subjacente as ideias de Sylvia Camby Novaes e Walter Benjamin.

Na fotografia Benjamin diz que há a erosão da temporalidade. No texto, Sylvia Novaes diz que há a produção do tempo e uma distância entre ele e aquilo sobre o que ele fala, na imagem, acrescenta, há uma aproximação com aquilo que ela apresenta.

Imagens fotográficas são signos que pretendem a completa identidade com a coisa apresentada.” (Sylvia Novaes)

A erosão do tempo nessa imagem, de acordo com Benjamin, convém, desde logo, dizer que estou falando das imagens fotográficas antes do fotoshop, foi a pior e a melhor das coisas, pior porque a imagem permitiu ver, recordar o que estava ausente, a questão da ausência e da recordação acaba demasiadamente estreitando as condições para a imaginação, melhor porque foi uma tábua de salvação para as imagens gráficas que estavam ligadas obessessivamente a coisa apresentada, mas graças a fotografia, a imagem gráfica conseguiu sua autonomia; no que diz respeito a autonomia das imagens vou emitir outra hipótese de que o cinema, pivilegiei o cinema de animação, mais do que a fotografia favorece a imaginação, ele só está atrás do teatro. Três exemplos chegam para averiguarmos as hipóteses.

Trecho do texto Cinderela dos irmãos Grimm

Imagens do filme Cinderela da Walt Dinsey

Imagens do teatro de animação Cinderela doTeatro de Marioneta do Porto

Trecho do texto dos irmãos Grimm Cinderela

Um dia o rei anunciou que haveria uma festa que duraria três dias para a qual todas as moças jovens e bonitas do reino estavam convidadas para que o príncipe escolhesse sua noiva. Quando as duas irmãs de Cinderela souberam que estavam convidadas, ficaram eufóricas, chamavam Cinderela e diziam, “pentei nossos cabelos, engraxe nossos sapatos e ajude-nos a nos vestir, porque nós vamos ao casamento no palácio real.” Cinderela obedecia e chorava, porque ela queria ir com elas para o baile, e implorava à madastra que deixasse-a ir.

“Você, Cinderela,” disse ela, “coberta de pó e sujeira como você sempre está. Você não tem roupas nem sapatos e nem ao menos sabe dançar.” E mesmo assim Cinderela continuava pedindo. Depois de um tempo a madrasta disse, “E despejei um prato de lentilhas nas cinzas, se você conseguir catar todas em duas horas, deixarei você vir conosco.”

A moça foi até a porta dos fundos e chamou:”Mansas pombinhas e rolinhas e todas as aves do céu venham me ajudar a catar as lentilhas. As boas no prato, as ruins no papo.”

Logo duas pombinhas brancas entraram pela janela da cozinha, em seguida as rolinhas, e por último todas as aves do céu, vieram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombinhas balançavam a cabeça e começaram a catar e os outros passarinhos fizeram o mesmo. Logo juntaram todos o grãos bons no prato. Não tinha passado nem uma hora quando acabaram o serviço e se foram. A moça, contente, levou o prato para a madrasta. Ela acreditava que com isso poderia ir ao baile com elas. Mas a madrasta disse: “Não, Cinderela, você não tem roupas e não sabe dançar. Você seria motivo de risos.” Como Cinderela começou a chorar, a madrasta disse: se você conseguir catar dois pratos de lentilhas das cinzas em uma hora, poderá ir conosco. Ela achava que desta vez, Cinderela não conseguiria. Quando a madrasta derramou os dois pratos de lentilhas nas cinzas, a moça foi até a porta dos fundos e chamou:”Mansas pombinhas e rolinhas e todas as aves do céu venham me ajudar a catar as lentilhas. As boas no prato, as ruins no papo.”

Logo duas pombinhas brancas entraram pela janela da cozinha, em seguida as rolinhas, e por último todas as aves do céu, vieram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombinhas balançavam a cabeça e começaram a catar e os outros passarinhos fizeram o mesmo. Logo juntaram todos o grãos bons no prato. Não tinha passado nem meia hora quando acabaram o serviço e se foram. A moça estava muito feliz achando que agora ela teria permissão para ir ao baile. Mas a madrasta disse: “Isso não adianta nada. Você não pode ir conosco, pois não tem roupas e não sabe dançar. Só nos faria passar vergonha.” Dito isso, ela virou as costas e partiu com suas orgulhosas filhas.

Enquanto não tinha ninguém em casa, Cinderela foi ao túmulo de sua mãe, sentou-se sob a árvore e disse:”Balance e se agite, árvore adorada, me cubra toda de ouro e prata.” O passarinho entregou-lhe um vestido de ouro e prata e sapatos de seda com bordados de prata. Ela vestiu-se com pressa e foi ao baile.

O que é importante examinar nesses exemplos não é o que imaginamos, mas as condições sobre as quais a imaginação trabalha.

No texto a imaginação acontece em função das nossas experiências, das imagens mentais. Na imagem fotográfica, Silvia diz que não há se, a imagem é, nisso reside a minha crítica, a fotografia embalsa o corpo, não cria a eternidade, como Silvia diz apenas ilude a sua aparência de naturalidade e transparência, por isso eu a deixei no seu invólucro. No cinema há os saltos, a eternidade, condições para a imaginação, há até identificação, recordação; vemos o que está representado e o que a representação evoca.

Se o texto adicionado aos personagens animados favorece a imaginação, imagine o teatro. No teatro nós nos ligamos e desligamos do aqui e agora. Frequentemente é atráves da presença, da materialidade das coisas que imaginamos no teatro; pode até existir outras condições para imaginarmos, concordamos que elas tem haver com os meios, mas em conformidade com Calvero o seu alicerce fundamental da imaginação é o tempo.

Érica Patrícia Ferreira de Sousa