Este texto pretende tratar duas questões suscitadas pelo espetáculo As Barcas da Cia. JGM, apresentado no dia 27 de março de 2013, no Teatro Acadêmico Gil Vicente: Por que As Barcas é uma prática performativa? O que uma prática performativa permite compreender do papel dos médias?

Quero partir do princípio de que os elementos utilizados em As Barcas apontam para uma linguagem performativa, em linhas gerais, o corpo e tecnologia apontam para uma prática performativa.

De acordo com o encenador João Garcia Miguel a noção de corpo performer em As Barcas é a de um corpo vivo, perdido, no sentido de está embaixo do limiar dos textos de Gil Vicente: Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório, Auto da Barca da Glória. Esse corpo foi construído em termos dos binônios Deus e diabo, corpo e alma, amor e ódio, bem e mal; o som e o vídeo, é o meu posicionamento, em termos metafóricos.

O som (música) gravado e ao vivo remetem para um código, nisso reside a questão do público. Onde está Gil Vicente em As Barcas?

Na prática performativa a inscrição da imagem e do som é diferente da inscrição escrita, por isso os textos de Gil Vicente foram mediatizado pelos figurinos, adereços, luz, imagem, som. Os personagens, quinze só no Auto da Barca do Inferno, são abstrações, por isso reconhecíveis atráves dos meios usados, por exemplo, o Fidalgo é conhecido pela cadeira, o sapateiro pelo sapato, Florença, personagem secundária no Auto da Barca do Inferno, mulher do padre, pelo figurino, manipulado no palco nos intervalos das cenas, o diabo pelo tom da voz, Deus pela imagem digital, imagem do olho de Deus e imagens calculadas, geométricas.

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Imagens de Érica Sousa

Segundo Amélia Pinto Pais, os personagens dos textos de Gil Vicente não tem psicologia e quase não tem nome, isso, a meu ver, permite que o contexto e os grupos sociais sejam o conteúdo do espetáculo, em As Barcas o encenador pegou no contexto de crise europeia.

Sem dúvida a linguagem máxima de toda a performance foi a metafóra do paradoxo do homem: poder e não poder (contra a natura) a tendência para gostar de tudo que é proibido, o querer não querer.

Quero insistir que o uso da imagem digital, particulamente na cena do embarque das almas na barca do inferno é coerente com a expressão fisíca performativa dos atores-personagens (nus em fila), que o adjetivo ruim não caracteriza o espetáculo As Barcas, negligência o papel fundamental dos médias que é aumentar a nossa percepção, dar conta dos textos de Gil Vicente. Concordamos ouvido com os olhos, lido com os ouvidos.

 Érica Patrícia Ferreira de Sousa