"Vaso Sanitário"Arthur Bispo do Rosário

“Vaso Sanitário”
Arthur Bispo do Rosário

Chega um tempo que mesmo com o avanço da fotografia e o constante desenvolvimento do cinema a arte é posta em questão. Já não são suficientes as técnicas de pintura que aproximam cada vez mais a tela do real. É tempo de repensar a arte e o próprio fazer artístico.

Nesse contexto aparece Marcel Duchamp, um dos precursores da arte conceitual e um dos que transportam elementos da vida cotidiana para um ambiente artístico. É o caso de uma de suas obras mais conhecidas: “A fonte”, na qual expõe numa galeria de arte aparentemente um urinol.

No Brasil, 22 anos depois do nascimento de Duchamp na França, nasce em 1909 no estado de Sergipe, região nordeste, Arthur Bispo do Rosário que viria a viver maior parte de sua vida, diga-se 50 anos, internado em um manicômio com diagnóstico de esquizofrênico-paranóico. Este que sem contato com livros ou artistas desenvolveu em seu pequeno quarto um conjunto de obras que deixou acadêmicos do mundo todo desnorteados por tanta expressividade e originalidade, sendo destacado por alguns críticos como arte de vanguarda e com semelhanças a obra do próprio Duchamp.

Bispo do Rosário

Bispo do Rosário

Nesse período em que viveu no manicômio era um momento em que os pacientes eram tratados com uso de eletrochoques e outras agressões para conter as crises. Foi lá que fez de seu quarto refúgio para criação das obras num ambiente que dialogava com o delírio e a realidade. Usando para tais obras objetos e materiais dispensados no hospital.

“O Manto da Apresentação”

“O Manto da Apresentação”

Era um homem religioso, dizia-se enviado de Deus para reconstruir o mundo, recusava o titulo de artista. Foi no manicômio que construiu um mundo paralelo de comunicação com Deus. Uma de suas obras mais famosas é “O Manto da Apresentação”, uma espécie de roupa mortuária que usaria para vestir quando encontrasse com Deus no juízo final, essa roupa ele bordou durante toda a vida. Possuía também uma obra que ao ver de imediato iremos lembra-se da “Fonte” de Duchamp e chama-se “Vaso Sanitário”.

Suas obras já percorreram o mundo, estiveram, por exemplo, na Bienal de Veneza na Itália no ano de 1995 e no museu Jeu de Paume em Paris.  A Colônia Juliana Moreira, onde funcionou o manicômio que morou, atualmente é o Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea no Rio de Janeiro.

Esse processo de questionamento da própria arte e do que seria e não seria arte também acompanhou os processos criativos de nomes como John Cage e Merce Cunningham.

John foi pioneiro no uso de instrumentos não convencionais e no uso não convencional de instrumentos convencionais para produzir música. Uma de suas obras mais conhecidas é 4’33”   no qual seus músicos ficam durante esse tempo em silêncio parados na frente dos instrumentos, escutando junto da plateia o som produzido pelo ambiente em que se encontram. Em uma conferencia sobre música instrumental John chegou a dizer que  música para ele é “um jeito de acordar para a vida”.

Já Merce Cunninghan, que começou sua carreira com Martha Graham, decidiu dar “uns passos a frente” e concebeu uma vanguarda para a dança moderna, tendo a dança como uma ligação com o presente. Foi parceiro de Jonh Cage, porém a música e a dança eram de naturezas independentes, não criava a coreografia para a música, mas que ao se encontrarem se diluíam num espaço livre no momento presente num jogo de movimento, espaço e tempo.

No livro “A Pedagogia da Autonomia” Paulo Freire diz que: “Quem tem o que dizer deve assumir o dever de motivar, de desafiar quem escuta, no sentido de que, quem escuta diga, fale, responda” (1996:132) e esse contexto histórico da arte com os nomes citados anteriormente reflete muito bem isso. Essa busca de acordar para a vida e questionar o fazer artístico, possibilitando enxergar a arte escondida em todos os cantos da vida.

Bruno Alves

Documentário com Bispo do Rosário:

Mais imagens de sua obra:

http://www.nasentrelinhas.com.br/noticias/costurando-ideias/243/a-iminencia-poetica-de-bispo-do-rosario-na-bienal/