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Um fio subtil branco apreende o nosso olhar em meio ao horizonte encantador entre sombra e luz. Suavidade que irradia a trivialidade do cotidiano em um gesto que se infinda no assoberbar de sua subtileza. Luz quase palpável que vaga sobre a rigorosidade de uma composição incisiva do real, pairando sobre um semblante desinteressado absorvido pelo presente, que parece negar a própria duração do tempo a contemplar o afável movimento do leite. Derramar que não apresenta-se inerte aos olhos do expectador, mas imutável em um fluxo contínuo que não paira nem sob o olhar mais circunstanciado. Tempo que não encerra-se, movimento que não se finda, porém perpassam o próprio tempo da acção, vislumbrado pelo eterno, transtornando a própria duração do eu “num sentido interior, complexo, obtuso e impreciso.” (Martin, 2005, p, 261)

Vermeer (1632-1675), Muybridge (1830-1904) e Vertov (1896-1954) laboraram a percepção do tempo sob perspectivas diferentes, porém com o mesmo ímpeto arrebatado em relação ao movimento e ao efeito deste sobre o prisma do tempo.A leiteira (1660), Locomoção Animal (1893), e Um homem com uma câmera (1929) são índices de um desejo, de uma intenção concretizada pela inscrição do gesto, ou pela inscrição mecânica de perpetuar o rastro luminoso. Este perenizar através da representação do movimento de Vermeer, das imagem sequenciais quase que atmosféricas de Muybridge, e o próprio meio de captação das imagens ao ganhar movimento nos travellings de Vertov, “são o resultado de um desejo maior que está de alguma forma condicionado à consciência que o homem tem da efemeridade e do desejo de suplantar tal limite.” (Lenzi, 2001, p, 1)

Jean Epstein já escrevia que: “são três as espécies de dimensões perpendiculares entre sí, para nos orientar comodamente no espaço, mas não ensinaram-nos, de modo geral, mais do que uma dimensão do tempo. Este tem de particular o facto de nós lhe atribuirmos, sempre de modo geral, um sentido rigorosamente único, como escoamento entre passado e futuro…” ( Martin, 2005, p 261). Muybridge perpassa uma noção de fixação, e petrificação do momento que se esconde no findar do facto captado. Em um contraponto a singularidade de um olhar sobre um determinado acontecimento, ele circunda o objecto de modo a criar uma atmosfera que capta em diferentes perspectivas o animal em movimento. Segundo Philippe Dubois a fotografia foi e tem sido trabalhada pelo problema do tempo, Muybridge leva ao extremo esta afirmação, transcendendo as limitações técnicas que não nos permitiam fazer um percurso adicional a imagem, aliando a representação fiel do real, com um bombardeio de olhares em relação ao objecto.

Vertov parece brincar com o movimento, em um sentido ascendente ele percorre a singularidade da imagem fotográfica, que aos poucos ganha movimento em uma relação metafórica entre fantoches inertes e máquinas em plena dinâmica. Assim como Vermeer, seu olhar volta-se a trivialidade do cotidiano, mas agora um cotidiano em um funcionamento quase frenético, a ponto de o próprio meio de captação das imagens (câmera) ganhar velocidade aos pés dos mais inusitados suportes. O homem com uma câmera é um reflexo metafórico da re-mediação entre os meios aqui citados, mas principalmente de um ímpeto humano presente no percurso da humanidade.

 

                                                                                  Pablo Pinho