Desde os primórdios do surgimento da espécie humana podemos notar sua ânsia em registrar os mais simples e puros acontecimentos à sua volta. As pinturas rupestres das cavernas pré-históricas são os primeiros registros visuais e as primeiras tentativas de comunicação escrita conhecidos. Esses registros são sobre outras formas de vida (animais e plantas), sobre os costumes (rituais religiosos e festivos), e até mesmo sobre a anatomia/fisionomia dos mesmos. Podemos dizer que trata-se portanto do início do desenvolvimento de uma técnica de desenho, na qual o homem passa a criar uma dimensão estética de si próprio e do belo.

Anos mais tarde, o conceito de estética e imagem se modifica com o pensamento dos filósofos gregos Aristóteles e Platão.  Aristóteles em sua obra Poética, que do grego poietes significa ‘aquele que faz’ e poiesis que significa a capacidade criadora afirma que para pudéssemos imergir realmente na esfera estética e ser chamado de artista (aisthesis) era preciso ir além, era preciso sentir.

Por Platão nos foi dado os princípios básicos estéticos relacionados às artes visuais – a imagem objetiva é aquela captada pelos sentidos em nosso estado consciente. E a imagem subjetiva, originada de uma ideia que vinha do que hoje conhecemos como subconsciente.

Em sua obra República, Platão reflete sobre o poder da imitação (mimese), e mesmo da imitação estilizada, estética. A imagem artística seja ela estática (como na pintura ou fotografia), ou dinâmica (como no teatro ou cinema), é um recurso poderosos que, como vemos nos dias atuais, é capaz de modificar hábitos, costumes, opiniões e modos de vida, simultaneamente; podendo ser considerada aqui como um agente político e ideológico.

Tudo isso trata-se apenas da introdução da imagem que sem dúvidas exerce um fascínio sobre nós. Segundo a fotografia e sua expressão dentro do panorama social representa como um todo tanto um registro documental quanto artístico. Podemos relacionar tal fato com a teoria do ‘Mundo das Idéias’ defendido por Platão: todos nós – conscientemente ou não – estamos em busca desse mundo platônico, desse mundo das idéias. A fotografia pode ser dita, no caso, como a que mais se próxima desta idéia de representação visual, estreitando os lações de afinidade entre objeto fotografado e o fotógrafo.

Da mesma forma, o cinema é considerado a representação mais fiel do movimento, da dinâmica das ações humanas. O cinema é a fusão de várias artes em uma totalidade disposta segundo uma intenção narrativa. Se fizermos uma análise das inúmeras composições narrativas cinematográficas percebemos como ela se repete. Podemos dizer que são as mesmas descritas por Aristóteles em suas tragédias há mais de dois mil anos atrás.

Sabemos que existe uma lacuna temporal imensa entre suas reflexões e a concretização da fotografia e da produção cinematográfica, ainda assim, a invenção da fotografia é um marco estético, filosófico e sociológico.

Concluo então que a fotografia e o cinema possuem raízes comuns que se entrelaçam tecnicamente – visto que o cinema é uma sucessão de fotogramas – e filosoficamente. A mesma busca pela representação, pelo registro do ideal, de onde desenvolve o valor estético da arte, foi alcançada pela fotografia no eixo do espaço, e pelo cinema no eixo do tempo, complementando-se.

Clara Oliveira