O desejo multimédia de certas artes pode ser claramente reconhecido em diversas práticas e a própria evolução das mesmas devido à revolução dos meios. Na pintura, por exemplo, a tela remete à uma fotografia que capta o instante de maneira bastante realista. Quando a fotografia torna-se realidade, a prática artístico-fotográfica toma proporções sequenciais até que, foto ao lado de foto, acabe virando película de vídeo.

Entretanto existem outras práticas artísticas que, de maneira discreta e subjetiva, demonstram o seu desejo multimédia. Falo, por exemplo, da literatura. A junção de palavras, criando sentido e narrativas, trouxe à arte escrita o desejo de transcender o papel. A literatura realista de Gustave Flaubert (1821-1880), por exemplo, traz de maneira única a vontade de simular o real. Cada substantivo e adjetivo, detalhe e observação, cada gesto e expressão descritos no texto levam o leitor a criar uma cena mental. Dentro da cabeça de quem lê “Um Coração Simples” (1877) desenha-se uma cena, com enquadramento, angulação, brilho, cor e contraste definidos pela sequência de letras inteligentemente colocadas pelo autor.

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«Trecho do livro Um coração simples, de Gustave Flaubert»

Outro exemplo do desejo de transformação da arte escrita está na obra “As Ondas” (1931) de Virginia Woolf (1882-1941). A autora modernista compila, neste livro, diversos desejos de multimediação. Um deles, por exemplo, é a maneira com que ela soma diferentes formas de escrita e expressão: diálogo, narrativa, monólogo interior, descrição, corrente de consciência dos personagens e etc. são estrategicamente distribuídos ao longo do texto. A combinação das diferentes formas do fazer literário demonstram as diversas possibilidades existentes dentro de um pedaço de papel.

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«Trecho do livro As Ondas, de Virginia Woolf»

Incluir ilustração, desenho e, por último, fotografia em livros pôde, em certa maneira, demonstrar as diversas possibilidades do papel. Porém a prática literária, mais do que qualquer outra prática artística, joga constantemente com o principal instrumento multimédia existente: a imaginação do seu público. Ao escrever – e descrever- uma cena, o leitor coloca cor, clima e som em cada ação. E é essa possibilidade de intercalar narrativas e modificar a história que faz da arte letrada um meio singular e ao mesmo tempo múltiplo em si próprio.

 

Texto escrito por Caroline Araujo Pinheiro da Costa em 19/03/13