Analisando o vídeo promocional «Paint» do televisor Sony Bravia, dirigido por Jonathan Glazer em julho de 2006, em um primeiro momento o que predominou foi certa atração pelas cores, misturadas em explosões multicoloridas acontecendo sucessivamente em um conjunto de blocos habitacionais.

Em seguida assisti ao mesmo vídeo, privado do som das explosões. Uma trilha sonora a fim de acompanhar o movimento da filmagem foi inserida, um fragmento da ópera «La Gazza Ladra», de Rossini. Mas para mim, a música projetava-se a uma velocidade superior das explosões inaudíveis, e não me foi possível associá-la as imagens, mesmo havendo uma intenção clara de tal iniciativa no vídeo. Algo me pareceu dissonante, era como se eu pudesse ouvir, além da música, o som das detonações, como fogos de artifícios.

A bela composição de Rossini, é por si só uma explosão estonteante de notas, é repleta de cursos orquestrais coloridos que a povoam desde sua abertura. No vídeo foi utilizado apenas um pequeno trecho, que ainda assim não manteve o conjunto fiel da composição. Um palhaço entra em cena cortando a sequência do comercial, a música é retirada por um momento e retorna posteriormente, em um trecho final mais intenso.

Mas voltando ao som das explosões, sobre o qual disse poder “ouvir”, mesmo este sendo substituído pela música. Nesse sentido, penso que as explosões multicores vistas por mim no vídeo manifestaram-se como signos. A teoria dos signos em que é possível essa aproximação é a de Ferdinand de Saussure, pois nela encontra-se o conceito de imagem acústica, Fiorin (2004) explica a teoria Saussuriana da seguinte forma: “signo é a união de um conceito com uma imagem acústica, que não é o som material, físico, mas a impressão psíquica dos sons, perceptível quando pensamos numa palavra, mas não a falamos”.

O conceito de imagem acústica de Saussure, mesmo muito posterior, pode ser relacionado aos Tratados sobre a Visão, que o filósofo George Berkeley escreve inicialmente em 1709, em uma das seções de tal obra encontramos o seguinte disserto:

“Disso, porém, não segue que uma forma visível qualquer seja semelhante a sua forma tangível correspondente, ou da mesma espécie que ela, a menos que se mostre que não apenas o número das partes, mas também seu tipo, é o mesmo em ambas. Para ilustrar isso, observo que formas visíveis representam formas tangíveis de maneira muito semelhante à que palavras escritas representam sons”. (Berkeley, 2010, p.145)

Ao pensar a explosão vista no vídeo, imediatamente, o som até então inexistente manifesta-se em minha mente. Digo assim que: se tratando de uma imagem reconhecível, não é possível destituir da mesma o som, nem o seu contrário, uma vez que ao ouvir um som reconhecível a imagem do que ele representa forma-se em nossa mente.

Por fim, ao analisar o vídeo em sua intenção principal, como promoção, e ao ver no final a frase «colour, like no other» acabo por discordar da mesma. Pois, se a relevância de tal propaganda era apresentar a grande fidelidade das cores do televisor Sony Bravia, para mim, a utilização da estonteante ópera de Rossini ofuscou tal intenção. Quignard (1999) diz que a “música não é olhada nem encarada”, mas “transporta imediatamente para o transporte físico de sua cadência tanto aquele que a executa como aquele que a ouve”, e é nesse sentido que me encontrei transportado para o universo sonoro da ópera de Rossini, que me projetou para muito além do mero comercial de TV.

Evandro Santos

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Referências:

Berkeley, G. (2010). Tratados sobre a Visão. Campinas, SP: Editora Unicamp.

Fiorin, J. (2004). Introdução à lingüística: Objetos teóricos. São Paulo: Editora Contexto.

Quignard, P. (1999). Ódio à Música. São Paulo: Rocco.

Fondazione G. Rossini em http://www.fondazionerossini.com/rossini/

Rossini: Ouverture (La Gazza ladra) em https://www.youtube.com/watch?v=nDBzi1aHbKY

Sony Bravia, Paint em http://www.moving-picture.com/home

Sony Bravia Paint advert HD em https://www.youtube.com/watch?v=q-ut_2GWIm4