Empregando-se de um sentido onomatopeico e metafórico no campo visual e sonoro, a obra multimédia de Jonathan Glazer, Sony Bravia Lcd tr ad: Behind the scenes (2007), proporciona-nos um estado de arrebatamento diante a dinamicidade, intensidade e ebulição das imagens em movimento que coabitam em uma relação de dependência mútua com a música impecavelmente ritmada. As explosões de cores apresentadas ao longo deste anúncio proporcionam as imagens um vigor, uma singularidade que não cumpre um papel passivo diante as nuances da melodia, mas sim laboram uma correlação entre imagem e som em pé de equivalência, proporcionando ao expectador a projecção em uma atmosfera multi-sensorial. Não somente a imagem em movimento, como não somente o som, suas singularidades só transpõem uma estética imersiva, em seu sentido etimológico quando trabalhadas em conjunto fulgurando um uno que possibilita a inserção do expectador em um presente ubíquo.

A partir desta criação multimédia podemos nos aventurar sobre este complexo caminho de concomitância e omnipresença entre som e imagem. A composição musical do video de Jonathan Glazer apresenta ao mesmo tempo um carácter lírico e sensorial. Refiro-me a lírico por entender que existe um elo entre a música e a emoção que proporcionam um estado de espírito referente, ou em reflexo a uma cultura auditiva do expectador em específico. Por outro lado o carácter sensorial apresenta-se como as adjectivações a posteriori que podemos atribuir as percepções que projectam se ao ouvido. Segundo Powell “ as ondas sonoras que viajam para os nossos ouvidos implicam mudanças na pressão do ar. Não podemos ver essas ondas, mas nossos ouvidos conseguem capta-las.” (Powell, 2012,p 34). Nesta perspectiva o carácter sensorial implica a impressão deste som através do tímpano. Alto, agudo, dinâmico, nosso campo auditivo abrange constantemente a totalidade do espaço em que estamos inseridos, sendo assim, tanto o carácter lírico, como sensorial reforçam o poder de absorção da imagem em movimento. (Martin, 2005, p,28)

As imagens que compõem a obra multimédia de Jonathan Glazer, são resultados de uma dinamicidade, uma movimentação intrínseca que corresponde quase que a uma metáfora das representações das ondas sonoras proporcionadas pela música através das explosões e dos travelling das câmaras. Esta relação onomatopeico da imagem como representação virtual do som, em principio, pode parecer uma relação hierárquica dispondo o som a frente da imagem como meio mais eficaz na potencialização da imersão ao expectador, porém assim como o som, a imagem apresenta um carácter lírico e um carácter empírico, logo os mesmos reforçam em meio ao plano fixo com imagens em movimento o poder de penetração do som. Morin ao referir-se as potencialidades da imagem em movimento diz que: “ É por dar um suplemento de vida subjectiva que ela fortifica a vida real, a verdade convincente, objectiva, das imagens do filme.” (Morin, 1956, p,136)

Sendo assim, a diferença entre som e imagem, presente dentro desta obra multimédia, resume-se apenas as suas ligações com partes do corpo distintas, pois as suas singularidades apresentam-se como estatutos de dependência recíproca, laborando concomitantemente em prol de uma noção wagneriana, em parte, de Gesamtkunstwerk. Pereira ao referir-se ao idealismo de wagner referente a junção das artes diz que: “Para esta junção era necessário que cada uma destas artes se colocasse a mercê de uma ideia integradora, que trespassasse a própria individualidade de cada arte”.(Pereira, 1995, p, 7) É nesta perspectiva que Jonathan Glazer consegue uma noção integradora em potência, e vai além, provocando as próprias configurações desta integração através de uma representação metaforizada em uma explosão de cores.