Interroga-se sobre o estudo da anatomia do olho e do ouvido na cadeira de arte & multimédia e sobre o conceito de multimédia.

Só podemos falar de multimédia se nos concentrarmos na relação que os sentidos humanos mantem com a matéria; entende-se que multimédia está ligado a uma coisa de ordem material.

Antes de abordar a relação dos sentidos humanos com os sentidos materiais ou técnicos, é de todo interesse falar da anatomia do olho e da anatomia do ouvido.

No século XV o estudo da anatomia humana fazia parte da formação dos artistas.

“Leonardo da Vinci foi o primeiro artista que considerou anatomia além do ponto de vista meramente pictórico.” (Petrucelli, História da medicina, 1997)

No século XVIII todos os aspectos da materialidade do corpo foram vistos, houve a subdivisão da anatomia.

O olho, basicamente, possui pupila íris, cristalino (forma a imagem), córnea (focaliza a luz), retina (lê a luz e conduz ao cérebro), humor vítreo, humor aquoso, glândulas lacrimais (produzem lágrimas, lubrifica o olho, o excesso de líquido desce pelo canal lacrimal e é despejado nas fossas nasais), pálpebras (protege os olhos, espalha as lágrimas), cílios (impede a entrada de poeira, excesso da luz), sobrancelhas (impede que o suor entre no olho). O ouvido divide-se em ouvido externo (envia o som para o canal auditivo externo) ouvido médio (envia o som para o ouvido interno) ouvido interno.

O olho (ver) e o ouvido (ouvir) estavam diferentemente pensados, tratados; no período do cinema mudo a visão era o sentido mais valorizado, existia uma hierarquia da visão. A relação do corpo com a matéria, da visão com a audição começou a mudar com a novidade do som.

Não se pode estudar a evolução da história do olho e do ouvido sem falar da evolução da história do som e do cinema, pois cada período cria tipos de relações, é mais interessante analisar a relação entre a imagem e o som nos vídeos da Sony Bravia LCD TV Ad, 2007, olhando para as primeiras formas da relação dos sentidos humanos, para a hierarquia da visão e da imagem.

A imagem e o som no primeiro vídeo da Sony Bravia estão sincronizados, o som (detonação, explosão) tem um caráter verossimilhante, é influenciado pela imagem  (desabamento, explosão de tintas), é usado como suporte da imagem, ouve-se o que se vê.

Analisando o segundo vídeo a imagem e o som também estão no mesmo nível, há uma articulação do compasso com a explosão e com movimento da tinta, a movimentação do palhaço no vídeo integra na pausa um ponto importante, a maximização da atenção; o som tem um caráter icónico, produz uma imagem auditiva, se ver o que se ouve.

O primeiro e o segundo vídeo mostram as opções e os efeitos da relação da imagem com o som (efeito imersivo). O terceiro mostra o trabalho dos realizadores.

Analisando os vídeos da Sony Bravia verificou-se a supressão do olho como único canal de apreensão.

Conclui-se que a hierarquia da imagem se encontra ultrapassada, tanto os dispositivos do corpo como os dipositivos técnicos estão interligados. É difícil dizer que eles são autónomos. É difícil não combinar o corpo com a matéria. A questão do corpo é uma questão fundamental para entender o conceito de multimédia.