Hoje em dia, quando falamos de multimédia, associamos esse termo a computadores, à internet, e a outros espaços que combinem várias vertentes de comunicação digital. Mas não nos podemos esquecer do significado de ambos os termos nessa expressão, e nem precisamos de evocar as teorias de McLuhan acerca dos media dentro de cada médium. É indiscutível que um filme combina a arte fotográfica com a música (mesmo no período dos filmes mudos);  mas hoje em dia há uma tendência para insistir, mesmo inconscientemente, na combinação de artes digitais. Mesmo a rejeição do que é eletrónico nalguns trabalhos de John Cage ou Merce Cunningham partem de uma cisão deliberada com algo dado como certo. Mas existe há mais de um século uma forma de “multimédia mecânica” que considero absolutamente fascinante:

A pianola não é um simples gramofone ou um rádio (a causa da sua extinção, visto que estes últimos eram muitíssimo mais baratos, portáteis, e ofereciam uma maior diversidade de canções). Inclui também uma forma de literatura muito própria no seu rolo (que em alguns casos possuía também a letra das músicas), e o movimento das teclas é uma dança mecânica hipnotizante. Isto tudo, sem falar mesmo no aspeto didático para um pianista a querer aprender a tocar uma melodia. Não há nenhum processo de simulação, nos termos de Kittler, visto que podemos abrir uma pianola e compreender rapidamente o seu mecanismo, mas seria interessante saber o que esse autor teria a dizer sobre tal objeto. É algo que se limita a imitar os movimentos de um humano, para produzir os mesmos resultados finais. Walter Benjamin bem poderia dizer que assim a música perde a sua aura, mas a pianola tem por si mesma outra aura própria, que deveria ser estimada em vez a deixarmos cair no esquecimento.