Alan Turing não foi apenas um pioneiro no domínio da computação. O teste de Turing, bem como as suas inúmeras variações, continua a ser alvo de discussões filosóficas extensas. Uma das mais interessantes é a que Philip K Dick propõe no seu Do Androids Dream of Electric Sheep?, no qual apresenta um mundo com andróides tão evoluídos que testes de inteligência passam a ser inúteis. Nessa realidade, o teste para distinguir pessoas de andróides baseia-se na empatia, pois apesar de poder ser simulada, exigia ainda nos andróides um tempo de processamento maior do que o dos humanos: se somos gravemente ofendidos, não demoramos mais de um segundo a analisar a frase e a mudar a nossa expressão facial.

Um dos testes mais mediatizados o ano passado foi realizado a 3 de Setembro na Índia. Contou com a participação do Cleverbot, talvez o modelo computadorizado mais popular disponível gratuitamente na Internet. Contudo, a versão apresentada na Índia possuía processadores bem mais poderosos do que a versão online, e analisava milhões de respostas possíveis antes de tentar escolher a melhor. No final, após mais de mil votações, 59% dos votantes acreditaram que o Cleverbot era um humano, enquanto que as respostas dos humanos atingiram cerca de 63%. É um valor que dá a entender que daqui a uma ou duas décadas poderá ser de facto impossível distinguir um humano de um bot, tendo apenas em conta uma “conversa de café”, ou até mesmo um debate acerca de temas com alguma complexidade.

A realidade da internet, porém, é bem conhecida. Se algo atinge uma certa popularidade, acaba por atrair pessoas que pretendem ajudar, mas também pessoas que “destroem” o que se tenta fazer. Apesar de a sua “inteligência” e base de dados ter evoluído, recordo-me de o ter experimentado em 2009 e ter recebido respostas bem mais interessantes do que atualmente. O Cleverbot de 2012 está repleto de nonsense e uma conversa irá inevitavelmente sofrer mudanças de assunto sem qualquer sentido.

Continua, no entanto, a ser interessante pôr duas versões do Cleverbot a conversar entre si, dar-lhes vozes e animá-las. Apesar de todos os vídeos deste canal terem momentos engraçados, escolho este como exemplo apenas por ter estado tão perto de entrar num ciclo vicioso sem saída:

Quis apenas introduzir este tema como “food for thought”, porque há uma questão bem pertinente relacionada com o domínio das artes: será isto arte? Mesmo que o Cleverbot venha a simular inteligência humana com um sucesso de 100%, não será verdadeiramente “inteligente”; e, nas noções mais formais e restritas de arte, tem de haver sempre lugar para o logos, que dá origem a uma dialética impossível de aprofundar num único post: de acordo com os modelos de conhecimento de Bernard Frischer, durante vários séculos a arte como a conhecemos visava a uma imitação da realidade; ou seja, sob uma perspetiva anacronista, a mimesis produz arte, apesar de o produto que é imitado não ser ele próprio um objecto artístico. Com o desenvolvimento das artes e da ciência, acabámos por chegar a uma época onde o que é fundamental é a subjetividade no domínio artístico, e surgiram correntes como o dadaísmo e o surrealismo, que não visavam uma imitação do real. Pergunto então: se essas correntes são arte, essa conversa não o é? O que diriam os dadaístas se recuássemos no tempo para lhes apresentar esse vídeo?

Esses bots não estão a criar arte deliberadamente, e a conversa não parte de um propósito consciente. Alguém poderá argumentar que, como tal, falta o logos, é uma produção automatizada. Poderá até dizer que o verdadeiro artista é o autor do programa. No entanto, em Brave New World Revisited, Huxley evoca o behaviorismo de Skinner para sugerir a hipótese controversa de que as obras de Shakespeare não foram escritas pelo Grande Bardo, mas sim pela Inglaterra Isabelina. O criador do Cleverbot não o poderia ter desenvolvido caso não tivesse computadores e, obviamente, caso não tivesse nascido; para isso, tiveram os pais dele de nascer, e por aí adiante. Até que ponto é a arte humana, e até que ponto é um único humano, como um ser isolado, um verdadeiro criador de arte original?