Norman McLaren nasceu em 1914 na Escócia. O seu precoce interesse pelo cinema deu-se quando entrou em contacto com as obras dos grandes cineastas soviéticos Eisenstein e Pudovkin e do animador alemão Oscar Fischinger. Em 1939 emigrou para os Estados Unidos, onde realizou vários filmes abstractos. Dois anos depois, aceitou o convite canadiano para integrar o National Film Board of Canada e aí implementar o departamento de animação, tarefa muito significativa para a sua vida e obra e que desempenhou extraordinariamente. Incansável na sua frutuosa demanda pela inovação constante, ajudou e estimulou colegas e alunos a valorizarem as ferramentas e técnicas que os próprios criavam, defendendo sempre uma plena liberdade criativa.

Em 1952 dirigiu “Vizinhos”, o seu filme mais celebrado, vencedor de um Óscar de melhor curta-metragem. Esta parábola pacifista mostra-nos dois vizinhos que se guerreiam pela posse de uma flor e de como esta situação hostil é toda ela ridícula. De acordo com isso, a personalidade de McLaren sempre fez a apologia dos direitos humanos, um tema muito destacado e constante no corpo da sua obra artística. Mas também fora dela, ele fazia questão de praticar o seu humanismo activista. Em 1953, em colaboração com a Unesco, rumou à Índia para ensinar algumas noções e práticas da sua arte, enquanto sensibilizava a população para questões sociais e humanitárias importantes para o seu desenvolvimento. Ao longo da sua extensa carreira, McLaren recebeu um número impressionante de prémios, homenagens e demais provas de reconhecimento, firmando o seu estatuto de artista maior, cujas imensas inovações influenciaram e continuam a influenciar fortemente os seus colegas posteriores. Com lugar seguro e destacado na História do cinema mundial, posterioridade é um substantivo que assenta-lhe que nem uma luva.

Análise de “Ballet Adagio” por Norman Mclaren (1972).

A questão da remediação:
A relação entre o ballet clássico, o vídeo, o corpo e o intérprete diz-nos muito sobre a interdisciplinaridade desta experiência artística remediada. Remediada porque não estamos a experienciar a obra de arte “in loco”, mas sim através de um mediador que é o documento fílmico e, além disso, temos a oportunidade de observar algo que não é comum na experiência ao vivo que é o movimento de pormenor devido à imagem em slow motion. Podemos apreciar/experienciar essa ambiência criada pela dança, uma sensação de leveza e voluptuosidade, e podemos  aproximar-nos dos bailarinos e sentir a poesia do movimento dos corpos em sintonia perfeita, num ritual em que podemos sentir uma brisa primaveril.

A questão da obra de arte multimédia:
É uma obra de arte com várias valências artísticas já que o ballet, a música e o vídeo estão incorporados no mesmo objecto definindo-a assim como uma obra de arte multimédia, já que multimédia se define por uma combinação de práticas e de técnicas distintas. Podemos ainda referir a noção dos média omo extensão do corpo e dos órgãos dos sentidos, tal como Kittler refere  em Optical Media, citando McLuhan: “media are the intersecting points (schnittstellen) or interfaces between technologies, in one hand, and bodies, on the other.”
A articulação entre o ballet  e o vídeo permite falar de uma obra de arte multimédia quer enquanto produto da combinação de meios artísticos, quer enquanto produto de combinação de meios tecnológicos.

A relação do tempo histórico, ballet e média:
O ballet em fusão com o vídeo e a música neste caso específico permite-nos ter uma experiência mediada contemporânea já que a tecnologia está fortemente presente neste vídeo/dança. Ao mesmo tempo sente-se a presença inequívoca da  história da dança, através do ballet, fazendo-nos assim atravessar vários séculos de história de beleza da técnica em 9m59s – uma experiência sublime entre várias linguagens.
Vemos aqui a arte do bailado ao mais ínfimo pormenor, impossível de ser percepcionado com tanta minúcia sem a preciosa ajuda da inscrição técnica do real. Na linguagem de Bolter e Grusin, “Ballet Adagio” é uma experiência de hipermediação já que torna um meio visível: esse meio é a possibilidade de observar em pormenor o movimento em slow motion dos bailarinos.

Em suma, Norman Mclaren é um experimentalista na combinação de vários meios, há claramente em toda a sua obra um desejo de combinação sinestética e de exploração da técnica em prol de um resultado artístico multimédia.

Podemos também fazer uma analogia com a última obra cinematográfica de Wim Wenders, ambos tentam fazer uma abordagem da mesma forma de arte mas com pressupostos diferentes.  Em “Pina”, filme a 3D, Wenders capta o universo da criadora e o mundo da dança contemporânea enquanto que em “Ballet Adagio” Mclaren explora o próprio meio, as técnicas de gravação em combinação com o som. Sendo que Wim leva o próprio meio até ao espectador e Norman leva o espectador até ao meio e aos corpos.

Com a ilusão da câmara lenta cria um desfazamento entre o som e a execução técnica. Embora o som seja em tempo real essa combinação cria a ilusão de  movimento, transmitindo uma visão alterada da realidade. Norman vai em busca do corpo, da leveza do movimento, da sintonia entre os meios técnicos enamorados pela fusão dos corpos, a sintonia entre almas, a dualidade ambivalente,  o desejo da unidade dual do mundo, a noite e o dia, a lua e o sol expressa em música da dança eterna até à sua própria essência, em suma a expressão da alma através da imagem.

Seguem-se os vídeos visualizados nas aulas:
Len Lye – Kaleidoscope – 1935
Norman Mclaren – Fiddle-de-dee – 1947
Norman Mclaren – synchromy – 1971
Wassily Kandinsky – 1866-1944
Walter Ruttman – Lichtspiel opus I – 1921
Segundo de Chamon – El hotel electrico – 1905
Maya Deren – the very eye of night – 1958

Trabalho realizado por Inês Maia, Artur Almeida e Hugo Sales.