A arte contemporânea descobriu o valor e a fecundidade da matéria. Isto não quer dizer que os artistas de outros tempos ignorassem que trabalhavam a partir de um material, e não compreendessem que desse material advinham as suas limitações e sugestões criativas, obstáculos e libertações. Foi Miguel Ângelo quem defendeu que a escultura se lhe apresentava já como que virtualmente contida no bloco originário, de maneira que o artista só tinha que trabalhar a pedra o bastante para fazer surgir a forma que o material, nas suas rugosidades, já continha.
Mas se é verdade que os artistas sempre souberam dialogar com a matéria e sempre souberam encontrar nela a fonte primária de toda a inspiração inventiva das formas e das cores, não é menos verdade que muitas teorias estéticas têm tentado ocultar este facto. Assim, a estética idealista ensinou-nos que a verdadeira invenção artística nasce nesse instante da intuição-expressão que se consome totalmente na interioridade do espirito-criador. A exteriorização técnica, a tradução da poesia em sons, cores, palavras ou pedra, era apenas um facto acessório, que não acrescentava nada à plenitude e definição da obra.
Foi precisamente como reacção a esta atitude que a estética contemporânea voltou a valorizar a matéria com bastante convicção. O regresso a uma tomada de consciência positiva dos direitos da matéria, para compreender que não há valor cultural que não nasça de uma vicissitude histórica, terrestre, que não há espiritualidade que não se manifeste através de situações corporais concretas. Não pensamos apesar do corpo, mas com o corpo.
Segundo, Luigi Pareyson, “o artista estuda a sua matéria com amor, perscruta-a até ao fundo, observa o seu comportamento e as suas reacções, interroga-a para poder dirigi-la, interpreta-a para a poder domar, obedece-lhe para a poder vencer, aprofunda-a para que ela revele possibilidades latentes e adaptadas às suas intenções, escava-a para a que ela própria sugira possibilidades novas e inéditas, segue-a para que os seus movimentos naturais possam coincidir com as suas exigências da obra a realizar, investiga os modos pelos quais uma longa tradição ensinou a manipulá-la para dela fazer surgir aspectos inéditos e originais ou para prolongá-los em novas progressões, e se a tradição de que a matéria se encontra carregada parece comprometer a sua própria ductilidade e torna-la grave, lenta e opaca, ele procura recuperar a sua frescura virgem, que é tanto mais fecunda quando mais inexplorada for, e se a matéria é nova, não se deixará impressionar pela audácia de certas sugestões que parecem dela sair espontaneamente e não recusará a coragem de certas experiências nem se furtará ao dever de a penetrar para melhor se evidenciar as possibilidades… Não se trata de dizer que a humanidade e a espiritualidade do artista se configuram numa matéria, tornando-se um conjunto, formado de sons, cores e palavras, porque a arte não é figuração e formação da vida da pessoa. A arte não é figuração e formação de uma matéria, mas a matéria é formada segundo um modo de formar irrepetível que é a própria espiritualidade do artista feita totalmente estilo.” A matéria é assim uma espécie de obstáculo sobre o qual se exerce a actividade inventiva, que transforma as necessidades do obstáculo em leis da obra.
Em suma, a arte contemporânea, na sua viagem em direcção a matéria, ensinou-nos a fruir, mais do que o objecto construído, o objecto encontrado, e é então que nos apercebemos de que existe um modo de reconhecer, de encontrar o objecto, onde, em última análise, reside ainda a arte.