Lev Manovich define cinco princípios que orientam e caracterizam os novos media digitais. São eles a representação numérica (os objectos digitais são manipulados por algoritmos e, por isso, programáveis e descritos matematicamente); a modularidade (os objectos têm a mesma propriedade estrutural em diferentes escalas, ou seja, podem ser representados com colecçõs discretas, mesmo quando combinadas com objectos maiores); a automação (são susceptíveis de serem programados automaticamente); a variabilidade (são susceptíveis de um número potencialmente infinito de versões) e, por fim, a transcodificação cultural, ou seja, a transformação dos códigos da cultura por acção dos códigos computacionais.

Ora, na literactura a intersecção desta com a informática, como por exemplo na poesia animada em computador, acentua a tendência do texto para passar os limites convencionais a que estamos habituados, ao desenvolver de interpenetração do verbal com o sonoro e o visual. A leitura ao transcodificar-se em movimento e ao prestar-se a modificações, implica que as transformações de maior alcance produzidas pela literatura digital sejam provocadas pelos textos mais interactivos, como é exemplo da poesia experimental.

A envolvência da informática no domínio da literatura pressupõe, implicações complexas entre máquina (hardware), programa (software) e o texto. Consequencia disso, é que já não será possível falar de texto de forma autónoma, mas sim, de um sistema mais complexo “máquina-programa-texto”. O mesmo acontece com as obras de Rui Torres.

 O uso do computador implica modificações e leituras diferentes a que o livro impresso nos habituou: a página expressa no ecrã apela mais a ver, a percorrer com o olhar, do que a ler em sequência e a focar-nos na história e significados. Esta transformação na inscrição tem implicações profundas, já que a página em papel, ou em outros suportes tradicionais, transporta consigo um registo fixo, a sua marca original e inalterável de um signo, ao passo que o ecrã nos apresenta uma superfície lisa e luminosa oferecida a percepcao visual. Ou seja, a inscrição impressa que liga o olhar linha apos linha, passa-se então para o ecrã no qual o olhar tem tendência a dispersar, observando toda a superfície animada em simultâneo não focando nenhum ponto importante da narrativa. Então, o leitor transforma-se num espectador e o texto espectaculariza-se.Trago um exemplo de Fernando Pessoa, uma poesia visual.

Juliana Alves