© Rui Torres, Mar de Sophia (2005).

Partindo frequentemente de textos de outros autores, as obras gerativas de Rui Torres recodificam os textos originais inscrevendo a sua sintaxe e semântica na materialidade digital e na significação programada. Os seus poemas hipermédia tornam evidente que os códigos de programação se tornaram recursos específicos da retórica e da poética da criação digital.

As obras gerativas de Rui Torres não se limitam a analisar gramatical e lexicometricamente os textos-fonte. Elas recodificam os textos impressos de partida ao reinscrevê-los na multimodalidade da materialidade digital. Algoritmos randomizados e procedimentos permutacionais são aplicados a um conjunto de objectos digitais constituídos por texto verbal, vídeo, voz, música e animação. Deste modo, os significantes linguísticos de origem são integrados numa base de dados multimédia constituída por sons, imagens e animações, que reforçam a virtualidade do sentido enquanto instanciação combinatória de elementos modulares. Ao explicitar o paradigma e implicitar o sintagma, a cultura digital interfere profundamente com os modos narrativos de produção de sentido.

Com efeito, a tensão entre a lógica narrativa e a lógica de base de dados, descrita por Manovich como um elemento estrutural dos média digitais, constitui o eixo estético das obras de Rui Torres. Uma sequência textual, coincidente ou com um poema ou com um fragmento de poema ou de narrativa, é transformada em matriz geradora de outras ocorrências textuais possíveis, recontextualizadas num espaço audiovisual imersivo tridimensional. Tratado como mera actualização e instanciação singular de um estado textual potencial, o texto-fonte reabre-se à potencialidade turbulenta de significantes e significados, e aos processos de remediação e ressignificação característicos das literacias digitais.

© Rui Torres, Mar de Sophia (2005).

Starting from texts by other 20th-century authors, Rui Torres’ generative works recode their source texts by opening up their syntax and semantics to digital materiality and programmed signification. His hypermedia poems demonstrate that programming codes have become crucial elements in the rhetoric and poetics of digital creation.

Generative works by Rui Torres do not limit themselves to a syntactical and lexicometric analysis of their source texts. They recode their source printed texts by reinscribing the verbal texture in the multimodality of digital materiality. Randomized algorithms and permutational procedures are applied to sets of digital objects consisting of verbal text, video, voice, music, and animation. Thus linguistic signifiers are aggregated in a multimedia database consisting of sounds, images, and animations that reinforce the virtuality of sense as a combinatorial instantiation of modular elements.

By making the paradigm explicit and the syntagm implicit, digital culture profoundly interferes with narrative modes of producing meaning. In effect, this tension between narrative logic and database logic, described by Lev Manovich as a structural element in digital media, is the very aesthetic axis of Rui Torres’ works. A textual sequence, coincidental either with a poem or with a narrative fragment, is treated as a generative matrix for many other possible textual occurrences, now recontextualized in a three-dimensional audiovisual immersive space. Treated as a particular actualization and single instance of a potential textual state, the source-text is opened up again to the turbulent potentiality of signifiers and signifieds, and to processes of remediation and resignification typical of digital literacies.