Existe uma espécie de lente situada dentro dos nossos olhos, o cristalino, que se situa atrás da pupila e cuja função é orientar a passagem da luz até à nossa retina, que posteriormente leva a imagem (que está a ser interpretada consoante a luz, o movimento, a forma, etc,…) através do nervo óptico para que o cérebro as interprete e faça com que se tenha a percepção entre o contraste de claro e escuro e também da tonalidade das cores.

A luz, com base na nossa concepção, é uma sequência de comprimentos de onda a que o olho humano é sensível. Já o movimento é a alteração da colocação espacial de um objecto com passar do tempo.

A luz desempenha um papel muito importante para o processo de interpretação que o olho executa. Com ela é-nos possível distinguir formas, estruturas, traços, sombras, cores, entre muitas outras características, que não seriam distinguíveis ao olho humano se ela não existisse. A ausência de luz, incapacitaria então um dos nossos principais órgãos sensoriais de desempenhar o seu papel e de ser a câmara que grava no nosso cérebro as experiências que vivemos, como se nós fôssemos espectadores do nosso próprio filme. O nosso olhar é muito importante para tudo o que recordamos, para o que vivemos. Desperta os nossos restantes órgãos sensoriais e vice-versa, dando-nos uma percepção mais realista do que vivemos. É a lente de uma câmara que está embutida em nós e que nos faz estar atentos ao mundo que nos envolve e que nos deixa apreciar visualmente tudo aquilo ele nos pode proporcionar.

Um exemplo deste jogo entre a luz e o movimento é o teatro/dança de sombras, uma prática muito antiga, originária da China e que se espalhou pelos países da Europa.

O objectivo consiste no domínio das metodologias de manipulação do teatro de sombras, explorando artisticamente a sombra e o movimento em que a base e fundamento da comunicação é o corpo. Investigando as possibilidades expressivas do mesmo perante a luz ou ausência dela e através de estratégias que permitem o auto-conhecimento do corpo, fazem-se jogos de contrastes entre o movimento corporal e as sombras de modo a criar ilusões de óptica ao espectador.

Actualmente, existem alguns grupos que demonstram interesse neste tipo de performances e que têm vindo a engrandecer este género artístico, no entanto há um que se destaca, Pilobolus.

Contudo, existiram outros artistas e contemporâneos que se demonstraram bastante curiosos e interessados nesta expressão artística. É o caso do tão reconhecido coreógrafo Lin Hwai-Min que juntamente com o artista chinês Cai Guo-Qiang, criou uma obra de dança contemporânea (“Wind Shadow”), onde as sombras ganham vida. Esta obra, não é nada mais, nada menos, do que um estudo do movimento, realizado através do uso de paletas monocromáticas pretas e brancas e do contraste entre a luz e a sombra.

O teatro/dança das sombras é então uma arte performativa que joga com os contrastes da luz coadunado com os movimentos, criando uma ilusão de óptica aos olhos da pessoa que assiste à performance em si.

Sendo assim, a luz não só é muito importante para a captação informativa e sensorial da visão, como também pode ser manipulada por nós, de modo a obtermos o resultado que pretendemos.

Mariana Santos