M. C. Escher, Drawing Hands, 1948, litografia

Quando uma mão desenha outra mão e quando esta segunda mão se ocupa, ao mesmo tempo, a desenhar zelosamente a primeira mão e quando tudo isto é representado num bocado de papel preso com tachas a uma prancha… e então quando tudo isto, ainda por cima, é desenhado, podemos com certeza falar de uma espécie de super-ilusão. O desenho é, na verdade, ilusão: estávamos convencidos de que olhávamos um mundo de três dimensões, enquanto o papel de desenho só é bidimensional.

Bruno Ernst, “O espelho mágico de Maurits Cornelis Escher”, 1978

Esta citação vai ao encontro da ideia de perspectiva originada no período renascentista e na sua tentativa de aproximação a um mundo tridimensional que tornou possível fazer uma representação mais fiel da realidade. Por outro lado, figurar desta forma o que vemos cria também uma situação de conflito. Foi nela de M. C. Escher se debruçou procurando exactamente demonstrá-la em algumas gravuras por si criadas para o efeito.

Ao contrário dos artistas renascentistas, que tinham o desejo de criar uma representação óptica que ocultasse a presença do meio, Escher cria uma ilusão óptica, sim, dentro de uma outra ilusão óptica que, de certo modo, revela a presença do autor. É possível, então, ver a arte renascentista aproximada a uma fotografia do real e estas gravuras a uma fotografia de uma fotografia do real.

A perspectiva não passa de uma representação óptica ilusória, embora seja representada a partir de uma forma realista, e Escher “brinca” com isso mesmo.

M. C. Escher, Reptiles, 1943, litografia

Mónica Lemos Coelho