Uma das principais características do ser humano é a sua capacidade incontrolável de absorção cognitiva. Analisando as crianças, constatamos que numa certa idade funcionam quase como “esponjas”, absorvendo uma quantidade de informação impressionante a cada dia. Com a idade, vamos perdendo um pouco essa capacidade, mas tenhamos a consciência de que tudo em nós, incluindo a personalidade é constantemente contaminada pelo que nos rodeia.

Como o artista, antes de o ser, é também humano tendo com isso todas as suas qualidades e defeitos, é também ele, constantemente contaminado pelo que o rodeia. Na verdade, e pensando o artista como alguém que tem uma predisposição mais analítica e uma maior sensibilidade ao mundo circundante, talvez sofra mais desse efeito “esponja”, o que vai inevitavelmente ter influência na sua obra, seja ela em que área for. É evidente que há excepções, certamente, artistas em variadíssimas áreas tentam a todo o custo manter a sua arte pura de contaminação, mas será isso possível?

Todos nós temos uma percepção fotográfica do movimento. Com toda a informação que circula hoje em dia online, certamente já todos fomos apresentados a imagens em câmara lenta. É inevitável que um pintor contemporâneo, por mais purista que seja, não tenha essa memória presente quando pratica a sua arte. Somos o que nos rodeia e a arte é uma representação disso mesmo: dos nossos gostos, acções, paixões, medos e do que não entendemos ou não queremos entender, por isso é mais que normal que haja uma contaminação inter-arte. A negação deste facto pode ser uma tentativa de criação de estética pessoal, mas não creio que seja possível.

Emanuel Taborda