As evoluções tecnológicas têm vindo a alterar a forma como fazemos arte. Basta pensarmos em exemplos simples como a fotografia, inscrição mecânica/digital da realidade, que no século XX colocou em causa as formas de pintar realistas e fez com que os pintores procurassem formas de representação mais subjectivas e abstractas. Podemos também pensar na música e na forma como o aparecimento de instrumentos eléctricos e electrónicos alterou a sua estrutura e sonoridade.

Reflectindo sobre este assunto, questionei-me sobre a possibilidade de usarmos a tecnologia para fazer o percurso inverso, ou seja, recuar às formas de representação obtidas através dos meios artísticos tradicionais por via tecnológica. A primeira coisa que me veio à mente foram as técnicas de rotoscopia, que convertem imagens de vídeo fazendo com que estas aparentem terem sido desenhadas à mão, no entanto, a minha pesquisa não me fez descobrir mais nenhum bom exemplo e acabei por abandonar este raciocínio.

Voltando à questão sobre o papel da tecnologia na evolução das artes, acabei por me lembrar de um artigo que li sobre o artista português Leonel Moura, que numa forma de pensar e trabalhar algo avant garde, cria pequenos robots artistas que, por sua vez, criam as suas próprias obras. É um tema que despertou a minha curiosidade pois em vez de criar arte por meio da tecnologia, Leonel Moura tenta que seja os próprios dispositivos tecnológico a criar arte de forma autónoma. Mas será isto possível?

RAP, acrónimo de Robot Action Painting, é um pequeno robot pintor criado por Leonel Moura que se tornou numa espécie de artista residente do Museu da História Natural em Nova Iorque. Este vive isolado dentro de uma vitrina onde se vai movendo sobre uma superfície de papel, pintando-a com as suas canetas coloridas. Estas canetas são trocadas uma vez por semana, sendo esta a única intervenção humana sofrida pelo Robot solitário.

O que faz com que o RAP deixe de ser um simples dispositivo programado para fazer rabiscos é a sua autonomia, por enquanto ainda muito limitada, mas que Leonel Moura acredita poder desenvolver em próximas criações: “De momento ainda temos bastante controlo, mas o importante é perceber que devemos perdê-lo, aliás, essa é a novidade do meu trabalho por oposto aos artistas que usam máquinas e robôs como mera ferramenta tecnológica da sua própria arte.”

O RAP é dotado de 9 sensores que funcionam como olhos. Quando se vê na ausência de espectadores este pára e só volta a pintar novamente na presença do público. Cada trabalho é único e pode demorar até duas semana a ser concluído.

A forma de pintar do RAP não é exclusivamente aleatória. À medida que o desenho vai tomando forma, os seus sensores reconhecem padrões, zonas em branco e zonas coloridas, levando-o a determinar onde e como vai pintar. É também graças a este processo de percepção determinado pelos sensores que RAP decide, de forma autónoma, o momento em que a pintura está terminada e onde a vai assinar (sim, tal como qualquer artista, este também assina as suas obras).

Mas não será a criação artística uma capacidade exclusivamente humana? Leonel Moura argumenta:

A arte tem sido encarada através dos tempos como uma actividade exclusiva dos humanos. Constituindo mesmo uma fronteira nessa estranha separação sempre pretendida entre vida humana e restante vida. Contudo, nas últimas décadas, o desenvolvimento do estudo sobre o comportamento animal tem vindo a revelar a produção de actos e objectos que facilmente se enquadram naquilo que consideramos relevar da expressão artística. Um apurado sentido do decorativo nalguns pássaros ou as pinturas do chimpanzé Congo reveladas nas precursoras investigações de Desmond Morris e depois prosseguidas em muitas outras experiências com os nossos mais próximos parentes no reino animal.
A minha proposta vai contudo um pouco mais além. Também os robôs, desde que dotados de autonomia e alguma inteligência, podem gerar uma expressão própria que pelas suas características devemos considerar como uma nova forma de arte independente daquela que é produzida pelo artista humano que esteve na origem do processo. Ou seja, a inteligência artificial pode gerar uma criatividade artificial.
Neste sentido esta criatividade artificial produzida por robôs questiona não só as noções correntes de arte e cultura, como o próprio conceito e lugar do humano. Já que pela primeira vez somos confrontados com a possibilidade, muito real, de darmos origem a seres com capacidades similares ou mesmo superiores às nossas.”

RAP não é o único robot-artista criado por Leonel Moura, outras criações no campo da robótica podem ser consultados no seu site: http://www.leonelmoura.com/

Joyce Lopes