O Pintor e a Cidade é tudo menos um documentário sobre o Porto, mas uma deambulação pela cidade através do olhar do pintor. Um olhar atento à cor, que é trabalhada de uma forma estupenda, a banda sonora sem efeitos especiais, mas muito bem enquadrada no movimento de cores e imagens do filme.Por vezes a câmara neutraliza a cor com planos escuros, como acontece na descida ao bairro do Barredo, expondo o princípio da formação da cor, com a ascensão da câmara ao céu, à luz. O filme procura as fachadas modernas dos prédios, com o contraste das velhas fachadas da cidade que são rasgadas pelo passar da câmara, numa evocação saudosista do passado. A entrada dos operários nas fábricas, vindos das periferias, enfim, uma cidade que desperta para a labuta e adormece com o silêncio da noite.

CITI

Neste filme, o realizador Manoel de Oliveira mostra-nos a cidade do Porto segundo duas perspectivas, combina a sua visão – cinematográfica – à de um pintor – António Cruz. A banda sonora do filme é composta pelos sons da cidade e pela música de Luís Rodrigues, complementando o retrato desta.

Em «O Pintor e a Cidade», filmo uma realidade em contraponto à visão poética de um pintor. Foi pouco antes da realização deste filme que aprendi a trabalhar com a cor. Foi o meu primeiro ensaio como operador. Toquei na cor pela primeira vez. Tinha pensado filmar noutro local, num sítio mais típico no Norte, mas conhecia melhor o Porto. Quanto ao pintor, foi escolhido apenas pela cor. Foi apenas um pretexto. Se tivesse abordado directamente a cidade, a coisa teria na mesma um ponto de vista cinematográfico.(…) Ao mesmo tempo sentia uma grande responsabilidade com a comparação da fotografia com os quadros… mas creio que não tive nenhuma intenção de estabelecer um paralelo, um prolongamento, ou mesmo de refazer o que tinha sido feito em pintura. Esqueci tudo durante a rodagem. Foi apenas na montagem que escolhi os quadros, o que evidentemente me forçou a fazer uma certa ligação(…)

Há para mim uma diferença fundamental entre «O Pintor e a Cidade» e o «Douro, Faina Fluvial»: este é um filme de montagem enquanto «O Pintor…» é uma espécie de reacção contra a montagem. Quis prolongar a duração do plano por um tempo inabitual. Foi um dos primeiros filmes em que o tempo se alonga mais do que é aparentemente necessário. Tenho a sensação que os primeiros segundos deixam no espírito do espectador uma impressão, uma imagem… mas juntando a essa visão o tempo, a duração, ela transforma-se no espírito do espectador.

O tempo é um elemento muito importante que joga de uma forma incontrolável sobre o espectador. «O Pintor e a Cidade» é a minha primeira tentativa desse género.(…) Antes, era o filme de montagem, depois é o filme sobre o tempo e a reflexão.

Manoel de Oliveira