"The Singing Butler" - Jack Vettriano (1992)

Mazurka nas Noites de São Bento.

As chuvas voltaram. O seu primeiro toque, tão característico, provoca na pele uma sensação carregada de memória, como se de qualquer outro toque humano se tratasse. No quadro “The Singing Butler”, do pintor contemporâneo Jack Vettriano, essas sensações humanas, familiares, fundem-se numa maravilhosa composição de cores frias, às quais os elementos fundamentais à temática da obra se opõem com cores quentes. Afinal, como se poderia dançar se os pés não tocassem o chão?
Envoltos nos braços um do outro, estes indivíduos dançam uma música inaudível, contudo, a delicadeza dos seus pés tocando a areia dourada, somente com a ponta, colocando sobre ela todo o peso de dois corpos abraçados, faz soar a guitarra, o violino e o violoncelo do trio Dancing Strings. Num momento, este casal não está mais numa praia perdida, não chove, pois estamos em Setembro, numa noite quente na rua de São Bento, em Lisboa. À sua volta outros pares dançam, pois já não têm que segurar guarda-chuvas. E ao som de sublimes frases musicais de doze tempos, estes pares transferem o peso dos seus corpos de um pé para o outro, seguindo o ritmo pontuado desta Mazurka. Mas assim que no segundo e quarto compassos existe um acento, os corpos balançam e dão um pequeno hop. Este passo base parece simples, como um jogo onde basta encaixar as peças nos sítios e nos tempos exactos. Contudo, este par que desliza, não está a pensar no passo-base. Este par limita-se a ouvir a música, a sentir cada acentuação como se pudesse levantar voo e não fazer apenas um hop. Têm os olhos fechados e mesmo assim não caem, não tropeçam, não se pisam! Sentem-se, apenas. A mulher sente a firmeza do homem que a guia, não pensa no marcado movimento, deixa-se levar e compactua, assim, na mudança de ritmo, nas voltas sobre o seu corpo ou no rodopio suave que ambos constroem nos braços um do outro. Já o homem detém todo o poder da dança, sem qualquer sentimento sexista que lhe pudesse ser inerente! A mão que suporta as costas do seu par concentra toda a energia do movimento, e com uma simples pressão da ponta dos dedos ou um quase imperceptível relaxamento da palma da mão, este guia transmite todos os seus objectivos à mulher que se deixa guiar. Deste modo, unos, conseguem criar uma dinâmica de sensações e de sentimentos, que nenhum meio de inscrição automático consegue construir, nem mesmo um computador. Estas tentativas de reprodução do real, esta pintura e este vídeo, são exemplos belos e muitos expressivos daquilo que a dança transmite. Uma Mazurka pode ser explicada, pode ser vista, pode ser ouvida, pode ser pintada, pode ser gravada (e assim estudada!), pode ser fotografada, mas a sensação única que transmite jamais poderá ser inscrita no Real. Cada par é único e a intimidade que cada um atinge durante esta dança adquire dimensões oníricas que só se recuperam nas memórias mais profundas de cada indivíduo.
Tal como a chuva.