Já todos sabemos que objectos de ficção podem afectar a nossa realidade – seja uma música que nos comova ou uma personagem de uma peça que nos dê um conselho valioso que nunca mais esquecemos, entre muitos outros exemplos possíveis. O valor de uma obra de arte é muitas vezes exaltado por causa das reacções fortes que provoca, e o fenómeno da suspensão da descrença tem sido analisado há já vários séculos, ainda que esta expressão seja relativamente recente. O que pretendo aqui abordar é uma questão cada vez mais pertinente – onde é que acaba o real e começa a ficção?

A ficção científica fala-nos há imenso tempo de cenários de realidade virtual, mas penso que o mais próximo que existe dessa outra “realidade” continua a ser o mundo dos sonhos. Uma performance sem um palco, o cinema a três dimensões ou um jogo de computador extremamente realista podem ser experiências fascinantes, mas não vivemos nada disso com a mesma intensidade com que vivemos um sonho, ainda que algumas pessoas sonhem exclusivamente a preto e branco, e muito poucas sejam capazes de identificar cheiros nesse mundo que o nosso cérebro cria. Acho que podemos concluir desse modo que uma experiência pentassensorial não é o factor mais importante para sentirmos esse realismo (além disso, experiências como voar batendo os braços não são propriamente verosímeis, mas num sonho não nos fazem confusão…). Talvez o mais importante seja algo de muito mais primitivo, as nossas emoções: os sentimentos que uma pessoa que amamos ou odiamos nos causa, o nosso instinto de sobrevivência (porque mesmo num sonho achamos que, se morrermos, não ressuscitamos) ou até mesmo o saber que a cada acção corresponde uma reacção indelével.

Esta longa introdução serve para contextualizar a questão da tecnologia multimédia que pretendo levantar. Os cenários de Existenz de Cronenberg ou Demonlover de Assayas ainda podem estar longe de existir, mas ocorreu um evento há alguns anos que achei bastante curioso.

Na década de 90, os X Japan eram sem dúvida uma das bandas mais populares do Japão, dando ano após ano concertos para mais de 50 mil pessoas no Tokyo Dome. Pouco tempo após o fim da banda em 1997, o guitarrista hide é encontrado morto no seu apartamento. Em 2007 os restantes membros decidem reunir-se e agendam 3 concertos no Tokyo Dome, esgotando novamente com rapidez. O mais surpreendente (penso que nunca o anunciaram antes dos concertos) foi a inclusão de um holograma de hide no palco, formado a partir das gravações de um concerto de 1993, bem como a gravação do som da sua guitarra nesse concerto. Dessa forma, hide continuava a fazer parte da banda: não só no plano simbólico, mas no sentido literal, já que a presença do seu fantasma em palco e o som da guitarra faziam parte do espectáculo dado pela banda.

Pensei algumas vezes nessa questão, já que é um evento fora do comum. A imagem holográfica podia não ser tridimensional, mas hide estava lá, podia ser visto por todos, e aquilo que tocava podia também ser ouvido por todos. Era uma reencenação parcial do concerto de 1993, no concerto quinze anos depois. Aquilo que mais despertou a minha curiosidade foi tentar imaginar o que os restantes membros deveriam estar a sentir: se o facto de vermos filmagens antigas de um amigo ou familiar morto pode causar emoções fortes, ver uma imagem em tamanho real, ouvi-la, e partilhar a experiência com 55 mil pessoas deveria ter sido algo de avassalador. Foi decisivo para a escrita deste texto ter finalmente visto uma entrevista com o baterista, pianista e compositor da banda, Yoshiki, na qual confirma essa suspeita. De facto, apesar de estarem de volta ao activo, Yoshiki afirma que nunca mais usaram o holograma porque foi algo demasiado assustador, demasiado real.