Johannes Vermeer (1632-1675), Mulher Lendo uma Carta/ Woman Reading a Letter (c. 1662-63). Óleo sobre tela /Oil on canvas, 46,5 x 39 cm. © Rijksmuseum, Amesterdão.

Eadweard Muybridge (1830-1904), ‘Pousar uma cadeira, sentar-se e ler’/ ‘Placing chair, sitting and reading’, in Animal locomotion: An electro-photographic investigation of consecutive phases of animal movements, 1872-1885, Volume 07, Plate 241 (Philadelphia: University of Pennsylvania, 1887).

O movimento íntimo da leitura contém um eco dos movimentos do meu corpo. Do movimento interior desencadeado pelos símbolos que me atravessam. E do movimento observável dos músculos das mãos e dos olhos. Do peso e da posição com que todo ele se situa no espaço onde se entrega à leitura. Neste modo de entrega à força da gravidade, o espaço interior de leitura vincula-se à autopercepção do corpo no espaço exterior. Entre a cadeira e a mesa, quem me pintou de pé faz-me receber a luz que entra pela janela. A luz que me permite ler a carta que seguro nas mãos deseja escrever-se na tela em gradações subtis de castanhos e azuis. Nos contrastes claro-escuro, o olho deseja reencontrar a percepção singular que, num dado instante, me produziu como objecto de percepção no seu campo óptico. A mão inscreve na tela a presença da luz que se reflecte em mim. E, por momentos, quase parece possível ver o acto de ler. Como numa coreografia para mulher, cadeira e revista. De pé, de frente para a parede lateral do estúdio, com uma revista enrolada na mão direita, levante a cadeira com a mão esquerda, rode-a cerca de 45 graus no sentido retrógrado e pouse-a. Faça a rotação necessária para se sentar na cadeira depois de a pousar e sente-se a ler. Faça-o como costuma fazer. Pode usar o mesmo vestido que usou nas fotografias que tirámos ontem.

The inner motions of reading contain an echo of the movements of my body. An echo of the inner motions triggered by symbols as they pass through me. And of the observable movements of the muscles of the hands and eyes. Of my body’s weight and position in the space where it devotes itself to the act of reading. Through this mode of accepting the force of gravity, the inner space of reading becomes linked to self-perception of the body in external space. Between chair and table, whoever painted me standing here makes me receive the light coming in through the window. The light that lets me read the letter wants to write itself in subtle gradations of browns and blues. In these light-dark contrasts, the eye desires to rediscover that unique perception that, at a given instant, has produced me as an object of perception in its optical field. The hand inscribes on the canvas the presence of light that is reflected in me. And, at times, it seems almost possible to see the act of reading. As in a choreography for woman, chair and magazine. Standing in front of the lateral wall of the studio, with a rolled magazine in your right hand, you will lift the chair with your left hand, turn it counterclockwise about 45 degrees and place it on the floor again. You will make the rotation needed to sit in the chair, and you will sit down and read. Do it as you usually do. You can wear the same dress you wore in the pictures we took yesterday.