A tecnologia que transporta o seu desenvolvimento para as áreas artísticas e funcionais onde a multimédia é uma garantia inevitável, por muitas vezes tem sido encarada com uma ingenuidade pseudo-purista de quem olha as coisas sem as questionar. A bem da verdade, tal como quase tudo(?), a tecnologia é alvo de uma constante e forte (e balançada?) contenda entre a sobrevalorização e a subvalorização. A primeira costuma dar-se mais quando a palavra progresso é vilipendiada e não se coaduna com a palavra evolução, que defende um ir-mais-longe com real sentido para tal, e não só porque sim ou então com motivos ocos e patéticos. A segunda tem o seu espoletar muitas das vezes por pura desatenção ou desconsideração, originando um discurso simplista de tom estático, próprio de quem acha que a Terra não tem vida própria e que o Homem não tem de evoluir tecnologicamente de forma contínua para a melhor poder acompanhar, não esquecendo obviamente as influências que ambos jogam um com o outro. Tomemos o cinema como exemplo: como poderia este evoluir em termos artísticos sem o auxílio da tecnologia? Como continuam algumas vozes ainda a associar, como que exclusivamente, a tecnologia no cinema à elaboração crescente dos efeitos especiais e afins? Basta ter em conta questões tão básicas tais como o facto de o cinema também se ter tornado sonoro, colorido ou filmado digitalmente para perceber que a evolução artística cinematográfica tem andado acompanhada bem de perto pela tecnologia. Não que haja algo de errado com as obras mudas de inícios do século XX; muitas delas são fundamentais para o meu encanto e fascínio cinematográfico e não lhes alteraria nada. Da mesma forma que há muito de errado com muitas obras executadas presentemente que dispõem de todos os recursos tecnológicos à mão. Mas não será que a possibilidade tornada realidade de algo como – o desempenho do ponto de vista sonoro de Edward Norton no seu monólogo na casa de banho em “A Última Hora”, o poder do cromatismo de um filme como “Lola Montès”, de Max Ophüls, ou as várias irrepreensíveis filmagens nocturnas em formato digital e sua consequente textura singular de Michael Mann em alguns dos seus últimos filmes – granjeia legitimidade suficiente para o reconhecimento da tecnologia como algo intrínseco na evolução artística da criação cinematográfica? Eu acho que sim…

Artur Almeida