Definir o nosso corpo como uma máquina de ver e ouvir, é reduzirmo-nos à insensibilidade mecânica de um qualquer aparelho que registe “flashes” de um determinado momento. No entanto, os nossos sentidos gravam mais do que qualquer tipo de expressão ou registo momentâneo.

Possuímos sentimentos e sensações que associamos aos registos que realizamos ao longo da nossa existência. Isso faz de nós muito mais do que máquinas, ou então faz de nós “máquinas” mais completas. É verdade que o processamento do momento que é registado pode não ser e nunca é fiel à realidade. Há sempre algo que alteramos para que esse momento se torne mais especial ou que se assemelhe o mais aproximadamente possível ao que imaginamos. Captamos e fazemos um “print screen” muito baseado naquilo que queremos verdadeiramente recordar ou como queremos que seja recordado.

Só o nosso corpo consegue remodelar as memórias que temos de uma determinada coisa. Seja uma memória de um objecto, de uma pessoa, de um espaço, só o nosso corpo, os nossos sentidos, com base no que sentimos em relação a elas, conseguem captar os pormenores mais ínfimos do que recordamos e do que pensamos ser a imagem exacta de um determinado momento. Podemos obviamente recorrer a um registo material, mas esse será apenas uma faísca que nos remete para uma memória guardada em nós, com todos os sentimentos que lhe dão brilho.

A captação de recordações ou memórias através de artes como a pintura, música, escrita, são sempre influenciadas por nós. Acabamos por ser a máquina de todo esse produto final que não é nada mais do que a representação do que a nossa memória e os nossos sentidos nos transmitiram numa dada altura.

O mesmo já não acontece com a fotografia ou com arquivos videográficos. Neste tipo de “gravações”, apesar de as memórias mais palpáveis e sensoriais não estarem presentes, as imagens e os sons exactos (no caso videografia ) são verdadeiras fotocópias do momento preservado.

Muito mais do que máquinas de ver e ouvir, somos máquinas de reviver. Com os nossos sentimentos, o que outrora vimos e ouvimos, e que já não vemos, consegue distanciar-se da realidade pura do momento vivido, que pode ser registado com uma qualquer máquina, e remete-nos para a fantasia da nostalgia que dá uma nova cor sobre os nossos registos.

Mariana Santos