O ser humano tem meios para aceder ao real. O seu corpo é um dispositivo de mediação, uma autêntica máquina responsável pela sua relação com o real. Este contacto nunca se processa da mesma forma, nunca observa ou escuta algo do mesmo modo, fazendo o homem sempre uma leitura singular do que o envolve.

Somos, portanto, máquina de ver e ouvir, o que condiciona a nossa experiência do real. É preciso então esquecer isso e experienciar o universo de outro modo, pois o ser humano acaba por atribuir significados pré-concebidos às coisas. Surge assim o desejo de ver para além do universo criado pelo homem. Por exemplo, Van Gogh usa as formas e as cores de uma forma expressiva para intensificar na tela a presença do autor, ou seja, através destas, coloca na tela a intensidade da sua percepção do objecto em questão.

Do mesmo modo, nos sonhos criamos imagens ou relembramos outras que fazem parte do nosso próprio imaginário. Os sonhos nunca são uma cópia do real, mas sim aquilo que nós vemos dele. Assim, o conjunto de práticas, de interesses e de vivências que adquirimos ao longo do tempo fazem-nos ver as coisas de um determinado ponto de vista, ou seja, cada pessoa tem o seu próprio padrão descritivo. E, de facto, «através da recordação as imagens e os sons da memória refractam a percepção do que passou. Vêem, sem as verem, como se as tivessem visto. Escutam, sem os escutarem, como se os tivessem escutado.»

Provavelmente, dentro de alguns anos poderemos até visionar com todo o pormenor a nossa própria imaginação…

http://gizmodo.com/5843117/scientists-reconstruct-video-clips-from-brain-activity

Mónica Lemos Coelho