Num quadro, as cores e as formas são usadas com expressividade. A mediação do corpo humano concretiza o dever de intensificar a materialidade da arte – da coisa. Coloca-se então na tela a percepção da coisa. Processamos o mundo à nossa volta de uma forma constante – os sentidos dão-nos acesso ao mundo. Os olhos captaram o que os ouvidos ouviram. Os olhos fixaram na retina uma realidade que fica agora distorcida na memória e distorcida na própria inscrição do que ficou na memória. Numa representação pictórica de algum lugar, sabe-se que o som não se ouve, mas que se vê. Vejo no pomar a brisa que passou pelas folhas. Quando os meus olhos vêm movimento sabem que à partida esse movimento tem som. Existe numa representação da realidade – e na materialização do seu movimento – a percepção da coisa real que existe/existiu naquele instante da representação.

Constatamos, nestes últimos tempos, que a ciência tem representado o corpo humano como uma máquina – “Uma máquina de ver e ouvir”. Os media são representados como órgãos do corpo humano. O corpo humano é uma máquina multimédia?

O ser humano manipula o que pode – e o que deseja para si – a própria realidade. Quando olho para o que vejo, quero captar em mim mesma cada instante. Quase que sinto raiva de mim por nunca o conseguir fazer. É como se fosse um desperdício de tempo e de lugar e até de espaço não conseguir fazê-lo. Como se o meu corpo se culpasse por não conseguir imortalizar em si aquilo que experienciou. Já que tem tantas funções, porque não consegue ele concretizar o desejo de memória real? Eu vejo e depois sinto. Sinto e depois digiro as memórias. São as sensações que nos dão como presente a memória delas. Graças a estas lembramo-nos que não nos queremos esquecer de nada.

Ver fora de mim. Ouvir fora de mim. Sentir fora de mim. Experiência. Sensação. Especificidade. Sentir! Sentir-me a mim e ao outro. Sentir-me a mim e à coisa. Evocar tudo com todas as forças. Evocar a melhor memória. Ou o sentido dela.

Onde estás Memória? Não te consigo ver. Não te ouço. Não tens cheiro, nem tens textura. No entanto sei que estás comigo. Lembro-me das coisas, mas não na sua real totalidade. E assim se percebe que a realidade nunca me foi realmente perceptível através da memória. Porque a memória nunca me guardou o momento, ou outra coisa, tal como realmente foi.

Anabela Ribeiro