Engana-se quem pensa que podemos ter uma experiência directa da realidade, que podemos ver o mundo tal como ele é. Não é preciso entrar em divagações metafísicas para justificar esta afirmação – basta apenas pensar em algumas questões de variadas áreas:

A investigação neurológica provou-nos que, ao olhar para o passado, nunca nos recordamos de uma vivência; recordamos sim a nossa memória dessa vivência, da forma como a apreendemos. Quando pensamos no sabor de uma bebida, não é do seu paladar que nos recordamos, mas sim do que sentimos ao experimentá-la (ou ainda do contexto em que surgiu a memória, como Proust exemplifica com a sua madalena). E mesmo essa memória pode ser modificada numa recordação posterior. É por isso que, muitos anos depois de provarmos algo de que não gostámos, podemos repetir a experiência e gostar: a nossa memória engana-nos;

A ideia de um estudo da biologia quântica já existe há cerca de meio século, mas só muito recentemente é que começámos a ter os meios para pôr em prova as teorias. Surge-nos a possibilidade de electrões no corpo de seres vivos existirem em dois estados diferentes em simultâneo durante uma ínfima fracção de segundo, e isso afectar toda a vida do organismo sem que este se aperceba. Os dois elementos essenciais para a física clássica e para o nosso dia a dia – o tempo e o espaço – podem ser aspectos meramente secundários do nosso universo;

Os cães têm uma capacidade muito inferior à dos humanos no que diz respeito à distinção de cores, mas não só possuem um campo de visão maior como também uma visão nocturna bem melhor do que a nossa. Podemos mesmo dizer que uma espécie vê melhor do que a outra?

Tudo o que chega ao nosso cérebro é remediado pelo nosso corpo e afectado pelas suas limitações, e apesar de tudo ser discutível, algumas discussões são inúteis. Fazendo todos nós parte da mesma espécie, partilhamos tantos aspectos em comum que é por vezes quase impossível compreender como é que outra pessoa não percepciona o mesmo que nós. Para complicar ainda mais a questão, o mesmo termo usado por duas pessoas diferentes não quer dizer sempre a mesma coisa.

Por vários motivos, o rigor científico não pode ser descurado na discussão da arte, mesmo que possa ser irrelevante para a sua fruição. E, de certo modo, continuarmos todos a viver na caverna de Platão não fará qualquer diferença enquanto ninguém conseguir quebrar as correntes e aventurar-se pelo lado de fora.


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