Os nossos olhos e ouvidos são janelas para o mundo, através das quais nos chega o que nos rodeia. Assim como o nosso paladar, o nosso olfacto e as terminações nervosas da nossa pele. Os nossos sentidos transportam para a nossa mente o que se passa no mundo exterior. Esta, por sua vez, armazena esse conjunto de imagens e sensações e permite-nos revivê-las sem ter que as sentir novamente.

A nossa experiência sensitiva confere-nos também a capacidade de gerar na nossa mente imagens, sons e sensações nunca antes experienciadas. Através do sonho, por exemplo, visitamos lugares inexistente, mas que a nossa mente é capaz de arquitectar a partir da memória. Pintar um quadro, produzir um desenho, compor uma música ou escrever um romance, resulta da capacidade do nosso cérebro reutilizar o que foi apreendido e projectar algo novo.

No entanto, a pintura de uma paisagem, ainda que essa paisagem seja real e pintada tal e qual como foi apreendida, não passa de uma representação dela mesma. É também algo de novo, uma recriação. O mesmo acontece com uma fotografia ou o som de um gravador.

O quadro de Magritte que se segue é um bom exemplo do que acabo de dizer. O que está no quadro não é de facto um cachimbo, pois deixa de ser ele mesmo ao ser mediado pela pintura.

Indo mais fundo nesta questão percebemos que os nossos ouvidos, olhos, pele, nariz e boca, ao serem dispositivos fisiológicos através dos quais nos chega o que nos rodeia, fazem uma mediação, tal como uma pintura,uma fotografia ou um gravador. A nossa percepção não é nem nunca foi totalmente pura. O que é real então? Como será efectivamente o mundo exterior?

Joyce Lopes