Ser aquilo que sinto ou ser aquilo que quero sentir. Sentir ao tocar ou imaginar o toque depois de sentir.

Tudo isto é relativo se se pensar na forma como a multimédia
modificou os nossos dias. Ou será que não mudou e tudo não passa de uma teoria que foi adoptada cada vez mais?

O certo é que, antes, no tempo em que a multimédia e afins
não passavam de um futuro muito longíquo, o ser era mais sincero, mais honesto e mais aberto às sensações. Sensações essas que eram reportadas como algo de simples e natural, sem se fazer muita reflexão sobre o caso.

Hoje, cada sentido pode ser avaliado de formas diferentes,
aquilo que eu ouço é diferente após o ouvir num gravador, aquilo que eu digo transforma-se em algo que eu não senti mas que os outros sentiram e ouviram.

O que é então verdade? Aquilo que eu sinto, aquilo que vejo como resultado dos meus sentidos, ou aquilo que uma máquina fotográfica recorda?

Como Alberto Caeiro disse:

Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Porque não somos responsáveis pelas nossas mãos, nem pelas
atitudes que elas têm, mas sim pela sensação que as mãos sentem.

Porque antes de sabermos se algo existe, já o nosso sentido,
sem darmos por ele, deu conta do que existe. Existência essa que está
impregnada na nossa mente e alma e pela qual nos guiamos a vida toda.

Existência que a multimédia tomou como sua, mudando os nossos
sentidos em relação a algo, mudança essa que afinal já iria e já queríamos que acontecesse, mas que só com esta ‘ajuda’ se torna possível.

Mas afinal o que são as sensações ?

Como Caeiro o previu e eu o confirmo:

E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

E quando a multimédia for mais um sentido nosso, aquele que
controla tudo, o importante é saber-se quando algo é verdadeiro ou não, quando algo não passa de uma máquina ou de uma imaginação matemática e aí diremos:

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz

Marta Pinto Ângelo