Richard Wagner, Die Walküre [A Valquíria] (1854-56; 1870) [início do 3º Acto, produção do festival de Bayreuth, originalmente encenada em 1976 por Patrice Chéreau. Cenografia de Richard Peduzzi. Figurinos de Jacques Schmidt. Maestro: Pierre Boulez. Intérpretes: Carmen Reppel (Gerhilde); Gabriele Schnaut (Waltraute); Gwendolyn Killebrew (Schwertleite); Karen Middleton (Ortlinde); Gwyneth Jones (Brünnhilde); Katie Clarke (Helmwige); Ilse Gramatzki (Grimgerde); Jeannine Altmeyer (Sieglinde); Elisabeth Glauser (Rossweisse); Marga Schiml (Siegrune). Gravação de 1980].

A cena tem, antes de mais, que preencher todas as condições de espaço para a acção dramática colectiva que nela há-de representar-se; em segundo lugar, porém, tem que resolver estas condições na intenção de levar essa acção à percepção e à compreensão dos olhos e dos ouvidos dos espectadores. Na organização do espaço dos espectadores é a exigência de compreensão da obra de arte que, no plano óptico e no plano acústico, dita a lei necessária, à qual só a beleza da disposição dos elementos – a par da adequação dos fins – pode corresponder; porque o desejo do espectador colectivo é precisamente o desejo da obra de arte, para cuja apreensão ele terá que ser determinado por tudo o que lhe surge perante os olhos. E assim, pelo ver e pelo ouvir, o espectador colectivo transporta-se inteiramente para o palco; só pela completa absorção por parte do público, o actor é artista. Tudo o que no palco respira e se move, respira e move-se por intermédio de um desejo maximamente expressivo de comunicação, desejo de ser visto e ser ouvido naquele espaço que, ainda que sendo relativas as suas dimensões, parece contudo ao actor, do ponto de vista da cena, conter toda a humanidade; porém, o público, esse representante da vida social, desaparece ele próprio no espaço destinado aos espectadores; o público passa a viver e respirar apenas na obra de arte que lhe surge como sendo a própria vida, na cena que lhe parece ser o mundo inteiro.

Richard Wagner, A Obra de Arte do Futuro [1849]. Lisboa: Antígona, 2003. Tradução de José Miranda Justo, pp. 179-180.