Vincent Van Gogh, O Pomar Branco (1888; óleo sobre tela, 60 x 81 cm), Van Gogh Museum.

Fecho os olhos e vejo. Imagino-me a ver. Recordando o que antes viu, o ponto de vista que me faz ser eu produz, a partir do que viu, imagens interiores do mundo exterior. Tapo os ouvidos e oiço. Escuto-me a escutar. Recordando o que antes ouviu, o ponto de escuta que me faz ser eu produz, a partir do que ouviu, sons interiores do mundo exterior. Oiço nesta frase o eco da frase anterior. Vejo-as, uma e outra, como repetições diferidas e transformadas. Imagens vistas dos sons que há nas palavras e que a escrita me faz voltar a escutar. Os olhos e os ouvidos são membranas entre o sentimento de ser eu em mim e a sensação de ser o mundo em mim. Através da recordação, as imagens e os sons da memória refractam a percepção que passou. Vêem, sem as verem, como se as tivessem visto. Escutam, sem os escutarem, como se os tivessem escutado. Não já a percepção no momento em que, modificados pelas ondas e partículas de luz reflectidas pela vista para lá da janela, os olhos viram de novo o acto de ver. No acto de se verem a si próprios a ver, surpreendidos pela solidez com que a luz amarela desta tarde sustém as árvores e o muro do outro lado da rua. Não já a impressão de terem escutado: no leve movimento surdo das folhas através do vidro os ouvidos recordam o vento inaudível. Abro os olhos e oiço. Destapo os ouvidos e vejo.